VEJA
www.veja.com
Editora ABRIL
Edio 2344  ano 46  n 43
23 de outubro de 2013

[descrio da imagem: todo funda da capa est em preto. Na parte central, quatro quadrados, em cada um aparece as mos de uma pessoa segurando um livro, bem na altura do rosto, portanto, aparecem as capas e as mos de quem segura os livros. O diferencial  o seguinte: no primeiro, quadro, na capa aparece o rosto de Gilberto Gil, o segundo, ao lado, o rosto de Roberto Carlos, o terceiro, abaixo do quadro de Gilberto Gil, aparece as mos com a capa tendo o rosto de Chico Buarque, e ao lado deste, no ltimo quadro, o rosto de Caetano Veloso.]
NOSSOS DOLOS NO SO MAIS OS MESMOS
Artistas favorveis  censura de biografias causam decepo.

[canto superior esquerdo da revista: imagem de um trem]
CARTEL DOS TRENS
Documentos mostram a riqueza inexplicvel de servidores de SP

[canto superior direito: um homem, sentado no cho, com um laptop no colo]
STARUPS
O Brasil tambm tem novas e promissoras jias do mundo digital.

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1# SEES
2# PANORAMA
3# BRASIL
4# INTERNACIONAL
5# ECONOMIA
6# GERAL
7# GUIA
8# ARTES E ESPETCULOS
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1# SEES 

	1#1 VEJA.COM
	1#2 CARTA AO LEITOR  O PREO DA FAMA
	1#3 ENTREVISTA  FRANCIS FUKUYAMA  A CONSTRUO DA DEMOCRACIA
	1#4 LYA LUFT  A BRUXA NOS RELGIOS
	1#5 LEITOR
	1#6 BLOGOSFERA
	1#7 EINSTEIN SADE  OS CAMINHOS PARA ENVELHECER BEM
	

1#1 VEJA.COM

A CINCIA NO CINEMA
Cientistas ficaram espantados ao ver a perfeio com que o filme Gravidade mostra o movimento no espao. Mas nem tudo o que se v na tela  exato. "No se pode pensar que se trata de um documentrio. H furos", diz Alexandre Cherman, astrnomo da Fundao Planetrio da Cidade do Rio de Janeiro. Por exemplo: se estivesse mesmo no espao, Sandra Bullock usaria vrias camadas de roupa e fraldo embaixo do traje de astronauta  nada de shortinho e regata. "Algumas das incorrees so claramente propositais. Sem elas, no haveria filme", diz Alexandre. Reportagem no site de VEJA mostra os erros e acertos cientficos de Gravidade.

VDEOS
* PERGUNTE AO CIENTISTA
Quantas estrelas existem no universo? Como elas nascem e morrem? Jorge Melndez, pesquisador do Departamento de Astronomia da Universidade de So Paulo, responde a essas e outras perguntas dos leitores. 
* PERGUNTE AO ADESTRADOR Que fatores devem ser levados em conta na hora de comprar ou adotar um co? Como prever que tamanho ter um filhote de vira-lata? Quais so as raas indicadas para crianas? O adestrador Alexandre Rossi, especialista em comportamento animal, ajuda quem quer levar um cachorro  para casa. 

ATLETAS IMIGRANTES
O atacante Diego Costa tem dupla nacionalidade: nasceu no Brasil, mas construiu a carreira na Espanha. Agora,  disputado pelas duas selees. Ele  um dos muitos atletas que trocaram de pas e enfrentam o dilema de escolher qual bandeira defender numa competio oficial. Reportagem do site de VEJA mostra como os jogadores lidam com essa escolha  e como a imigrao, especialmente na Europa, tem provocado grandes transformaes nos esportes. 


O TRABALHO DE EDUARDO CAMPOS
Eduardo Campos, que est prestes a sair em campanha como candidato  Presidncia da Repblica pelo PSB, traz consigo uma bagagem positiva:  o governador com o maior ndice de aprovao do pas  58%, segundo a pesquisa CNI/Ibope. Mas tambm ter de responder pela ineficincia em reas que apresenta como trunfos de sua gesto  a infraestrutura, por exemplo. Reportagem do site de VEJA foi at Pernambuco para verificar o andamento de projetos como o da BR-232, que ser licitada por meio de uma PPP, mas ter seus pedgios custeados com dinheiro pblico. J a Arena Pernambuco, que est em funcionamento desde a Copa das Confederaes, sofreu alteraes em seu contrato que reduzem os riscos do setor privado e aumentam o custo para o Estado.


1#2 CARTA AO LEITOR  O PREO DA FAMA
     Embora trivializar e personalizar questes srias seja um esporte nacional, raramente um assunto foi abordado com tanto alarido e inadequao quanto a recente assim chamada "guerra das biografias". Biografados e biografveis reclamaram o direito  privacidade,  correo das informaes publicadas sobre eles e  participao no lucro das vendas dos livros dos quais sejam os personagens centrais. Fossem essas as divergncias, o assunto poderia ser dado por encerrado. As leis brasileiras valem igualmente para famosos e annimos, para artistas e seus admiradores, para bigrafos e biografados. Quem se sentir ferido em seus direitos constitucionais  privacidade tem ampla possibilidade de defesa na Justia. Um autor que se proponha a escrever um monte de mentiras sobre a vida de um compositor, cantor ou ator respeitado est se condenando ao descrdito e ao esquecimento, ferindo a si prprio muito mais do que ao alvo de suas calnias. A cobrana por informaes dadas a um bigrafo pelo biografado tambm seria facilmente coberta por um acordo entre as partes. Essas questes, porm, no so as que realmente importam no movimento deflagrado por alguns dos mais talentosos e admirados artistas brasileiros. 
     Uma reportagem desta edio de VEJA procura colocar o tema em contexto mais amplo e profundo. Ela mostra que, cessada a fervura das declaraes contra e a favor das posies em disputa, o que sobra no fundo da panela  a grave questo institucional do controle da informao pela volta da censura prvia, um dos mais odiosos instrumentos das ditaduras. No foi censurando, criando barreiras para o livre fluxo das informaes que a civilizao se estabeleceu. O movimento libertrio vai na direo exatamente oposta. As sociedades abertas comearam a nascer no instante em que as pessoas conquistaram o direito de dizer, sem medo do cadafalso ou do calabouo, que o rei estava nu. Quem so os verdadeiros artistas seno os responsveis por apontar a nudez do rei? Os nossos o foram em passado recente. Agora eles reaparecem na cena poltica como defensores do indefensvel, a censura. Esse foi o maior choque. 
     Ningum que tenha algo valioso a perder, seja uma histria de vida, uma reputao ou uma obra artstica, est a salvo de se tornar alvo de biografias sensacionalistas motivadas por vingana, inveja ou dinheiro fcil. Isso se sabe e, dada a natureza oblqua de certos espritos,  inevitvel. O que no se entende  que a censura, pela obrigatoriedade de obter aprovao do biografado, seja defendida como o remdio para esse mal. No . As leis brasileiras em vigor j so mais do que eficientes para abreviar a carreira dos aproveitadores. A privacidade de um homem acaba onde comea o interesse pblico. A privacidade de um artista que vive da exposio de seu talento diante das plateias termina onde sua vida e obra se confundem.  o preo a pagar pela fama. 


1#3 ENTREVISTA  FRANCIS FUKUYAMA  A CONSTRUO DA DEMOCRACIA
O cientista poltico americano afirma que o Brasil ainda no possui as bases de uma sociedade avanada e diz que a manuteno da desigualdade pode levar ao radicalismo.
GIULIANO GUANDALINI

Por que alguns pases se desenvolvem e outros permanecem atados pelo atraso? Para o cientista poltico Francis Fukuyama, as teorias sobre o desenvolvimento quase sempre pecam pela "abstrao excessiva (o vcio dos economistas)" ou pelo "particularismo excessivo (problema comum a muitos historiadores e antroplogos)". Fukuyama, famoso mundialmente pelo livro O Fim da Histria e o ltimo Homem, de 1992, procurou estabelecer uma anlise mais abrangente da evoluo institucional no correr dos sculos, at o surgimento das primeiras naes verdadeiramente avanadas. Em As Origens da Ordem Poltica, lanado originalmente em 2011 e publicado no Brasil pela Rocco, Fukuyama trata do perodo que vai da Antiguidade at a Revoluo Francesa. No prximo ano, sair o segundo volume de seu trabalho, Ordem Poltica e Decadncia Poltica, em que estende a histria at os dias atuais. A construo das modernas democracias ser o centro da palestra de encerramento que o cientista poltico dar no seminrio "O Brasil diante de um mundo em crise e transformao: riscos e oportunidades", em 29 de outubro, em So Paulo, promovido pela consultoria Tendncias. Fukuyama, 60 anos, atualmente  professor da Universidade Stanford. 

Em As Origens da Ordem Poltica, o senhor argumenta que existem trs elementos indispensveis para a construo de uma sociedade virtuosa e desenvolvida. So eles: Estado forte, Estado de direito e governo responsvel perante a sociedade. Por que esses componentes so vitais? 
O Estado  a expresso maior do poder, como o poder de aplicar as leis e de oferecer certos servios exclusivos para a populao. Um Estado moderno  aquele capaz de cumprir essas funes de maneira impessoal. Isso significa um Estado que trate todos os seus cidados de maneira indistinta, independentemente de eles possurem conexes com autoridades. O verdadeiro significado de Estado de direito  a limitao do poder. O poder deve ser exercido unicamente dentro da lei. Em certo sentido. Estado forte e Estado de direito so foras que empurram para lados opostos. Estado forte diz respeito a concentrar e exercer o poder, e Estado de direito diz respeito a limitar o poder. Governo responsvel significa um Estado que trabalha para o interesse comum. A maneira mais usual de avaliar se o governo cumpre seus objetivos  por meio de eleies livres e multipartidrias. 

Eleies bastam para avaliar um governante? 
Nem sempre. Existem pases onde a populao vai s urnas, mas nem por isso podemos dizer que se trata de governos responsveis. Podemos estar diante de governos corruptos, que manipulam os resultados das votaes, ou de situaes em que os eleitores no possuem as informaes necessrias para fazer as escolhas corretas. Uma ordem poltica moderna, portanto, depende de um Estado que exera o poder, de leis que sejam respeitadas e limitem efetivamente o poder e de um sistema que avalie se o governo atua em benefcio da populao.  muito difcil, para qualquer sociedade, possuir esses trs valores simultaneamente. Podemos pensar na China. O pas possui um Estado forte e competente, mas no dispe de um Estado de direito nem de eleies livres. 

O Brasil evoluiu bastante nas ltimas dcadas. O senhor acredita que o pas j possui esses trs componentes de um Estado moderno? No h dvida de que as instituies brasileiras fizeram um progresso extraordinrio. Existem reas de excelncia dentro da burocracia federal. Mas quando observamos abaixo da superfcie, principalmente no nvel de estados e municpios, vemos uma queda na qualidade dos servios, sobretudo em educao, sade e segurana pblica  Ainda h muito a ser feito. Assim como em outros pases da Amrica Latina, a principal falha est na capacidade de oferecer os servios bsicos de maneira satisfatria. 

Por que o Brasil e outros pases latino-americanos enfrentam tamanha dificuldade para modernizar as suas instituies? 
Existem, em primeiro lugar, razes histricas. Os espanhis e os portugueses implantaram na regio suas instituies pr-modernas. Alm disso, no foram sociedades compostas inteiramente de colonos europeus, mas sobrepostas, de maneira desigual, a uma vasta populao de indgenas, tratados como escravos. No Brasil, assim como no Caribe, a economia foi moldada ao redor do acar, uma agricultura baseada em grandes propriedades e mo de obra escrava. Trata-se de um modelo cujo resultado  a desigualdade. No havia os incentivos para constituir uma burocracia administrativa de qualidade nas colnias. Em razo desse estgio inicial de profunda desigualdade, as instituies foram se moldando para servir s elites. Nunca houve o princpio de oferecer educao de qualidade a toda a populao. Desde que a elite estivesse atendida, bastava. 

Por que outros pases, principalmente na sia, conseguiram se desenvolver em um espao relativamente curto de tempo, ao contrrio do que vemos na Amrica Latina? 
O Japo, a Coreia do Sul, Taiwan, todos os chamados Tigres Asiticos, possuem populao relativamente pequena, muito mais homognea, alm de um forte senso de identidade nacional. Isso facilitou. Esses pases investiram muito na formao de uma elite burocrtica altamente capacitada. Houve ainda o investimento macio em educao. Na Amrica Latina, historicamente mais desigual, a trajetria tem sido mais lenta. Houve avano no acesso da populao ao ensino, mas persiste um grande desnvel na qualidade da educao, sobretudo aquela oferecida aos mais pobres. Os pases asiticos foram capazes de resolver essa questo mais rapidamente. 

O senhor, assim como outros autores, argumenta que pases com grande desigualdade de renda e oportunidades so suscetveis a retrocessos institucionais.  algo que pode ocorrer no Brasil, portanto? 
Acredito existir uma vulnerabilidade. O Brasil acaba de sair de uma dcada positiva, com crescimento econmico, avanos sociais, reduo da pobreza. Mas, se a China desacelerar, o boom das exportaes de commodities ficar para trs. A economia andar mais devagar. Isso traz consequncias polticas.  fcil manter os eleitores felizes quando as coisas vo bem e a economia cresce rpido, mesmo em uma sociedade profundamente desigual. Fica mais difcil manter a coeso social quando a economia est estagnada. O Brasil estar vulnervel a retrocessos, caso volte a ter uma dcada de crescimento lento. 

A chamada Primavera rabe poder, no futuro, culminar em pases mais democrticos? 
Acredito que sim. O problema  que as expectativas com relao  democratizao no mundo rabe tm sido exageradas. No se pode perder de vista como foi difcil estabelecer as bases para a democracia na Europa. Esses processos no ocorrem da noite para o  dia. Ainda levar tempo, ao menos duas geraes, para que vejamos a formao de instituies realmente democrticas no mundo rabe. 
     Existem semelhanas entre esses movimentos e os protestos recentes na Turquia e tambm no Brasil? 
     So protestos tipicamente originrios de uma classe mdia descontente. Os protestos sociais e as revolues nunca se originam dos pobres. Na Turquia e no Brasil, houve um aumento da classe mdia. Existe, portanto, um nmero maior de pessoas mais bem-educadas, detentoras de alguma propriedade e que utilizam a tecnologia para se conectar com o resto do mundo. So indivduos cujas expectativas em relao ao governo so superiores s de seus pais. A populao passa a reivindicar a melhoria dos servios pblicos, o fim da corrupo, o respeito ao meio ambiente. As exigncias aumentam quando os pases ficam mais ricos, e, se os governos no atendem a essas demandas, eles ficam vulnerveis. A desigualdade, quando extrema, d chance ao populismo e a polticas radicais. Por isso, todas as sociedades avanadas implementaram algum grau de Estado de bem-estar social. Essa talvez seja a grande falha da Amrica Latina. Os pases da regio nunca fizeram o suficiente para promover uma redistribuio de riquezas capaz de dissipar a radicalizao poltica e o populismo. 

O Fim da Histria..., publicado em 1992,  um dos marcos da nova era da globalizao. Houve a queda do Muro de Berlim, o colapso da Unio Sovitica, e o capitalismo liberal tornou-se de fato a fora hegemnica. Mas, recentemente, o senhor tem demonstrado certo pessimismo em relao ao estado atual das democracias liberais. Por qu? 
 extremamente difcil constituir um Estado democrtico moderno bem-sucedido. bem mais difcil do que eu imaginava h vinte anos. E, ao contrrio do que eu tambm imaginava no passado, esses estados tambm so suscetveis  decadncia, com o passar do tempo. Nada assegura que um pas ser para sempre uma democracia avanada apenas porque o foi no passado. Para os Estados Unidos, os ltimos dez anos foram terrveis. Invadimos o Iraque, e depois tivemos essa crise financeira horrvel. Foram falhas de polticas de governo, que abalaram o prestgio dos Estados Unidos como modelo internacional e expem problemas estruturais mais profundos. Tendo isso em vista, pensei ser necessrio ajustar um pouco o pensamento. 

O senhor est particularmente preocupado com a eroso na classe mdia americana. No acha que se trata de uma situao transitria, um reflexo do crescimento ainda fraco na economia? 
Infelizmente, temo que a deteriorao da qualidade de vida da classe mdia americana no seja algo transitrio. Ela se deve, essencialmente,  tecnologia. As mquinas so capazes de substituir milhes de trabalhadores, e  mais fcil substituir trabalhadores de baixa qualificao.  por isso que est ocorrendo uma eroso na classe mdia nos pases desenvolvidos, e no apenas nos Estados Unidos. No vejo como impedir o progresso tecnolgico. Obviamente no seria uma soluo inteligente. 

Por que essa nova revoluo tecnolgica no ser positiva para a sociedade como um todo, da mesma maneira como foi, no passado, a industrializao? 
Quando Henry Ford inventou a linha de montagem para automveis, h 100 anos, ele, na verdade, gerou empregos para milhares de pessoas com baixa qualificao. Antes, fabricar um carro exigia o trabalho artesanal de pessoas habilidosas e bem preparadas. Ford criou um processo pelo qual uma atividade complexa podia ser feita por trabalhadores com pouca qualificao. Agora, os robs esto cada dia mais tomando o lugar dos empregos antes ocupados por pessoas menos qualificadas. No falo apenas das linhas de montagem. J  simples substituir funcionrios em cargos administrativos, em reas como contabilidade e recursos humanos, por programas de inteligncia artificial. Mas no se podem substituir, da mesma maneira, as pessoas altamente capacitadas responsveis por projetar essas mquinas.  por isso que uma frao crescente da renda dos Estados Unidos tem ido para as pessoas extremamente bem preparadas e com grande habilidade cognitiva. 

O senhor diz que a agenda para proteger a classe mdia no pode depender exclusivamente dos benefcios da rede de proteo do bem-estar social. O que fazer ento? 
Gostaria de ter essa resposta. Estamos todos  espera de uma cabea genial que formule um programa para enfrentar com sucesso esse desafio. O sistema educacional no foi capaz de acompanhar essa transformao tecnolgica. No deu s pessoas os tipos de habilidade necessrios para que elas possam ser competitivas. Alguns pases parecem ter sistemas que lidam melhor com esse desafio. O caso mais bvio  a Alemanha. Os alemes no criaram grandes universidades como a de Stanford, ou o MIT, mas so timos em preparar as pessoas e dot-las das habilidades necessrias para trabalhar na indstria. A Alemanha  um grande exportador. Talvez exista algo mais a ser aprendido com esse pas. Mas no tenho uma resposta inteiramente satisfatria para sua questo. 


1#4 LYA LUFT  A BRUXA NOS RELGIOS
     No falarei aqui do meu desnimo quanto  situao do pas: cansei. Por algum breve tempo vou tirar ferias dessa preocupao. Vou me concentrar no possvel: os afetos, o trabalho, a vida. Ento falo aqui de um tema que me fascina, sobre o qual muito tenho refletido e acabo de escrever um livro: a passagem do tempo. 
     Quando criana, eu achava que no relgio de parede do sobrado de uma de minhas avs, aquele que soava horas, meias horas e quartos de hora que me assustavam nas madrugadas insones em que eu eventualmente dormia l, morava uma feiticeira que tricotava freneticamente, com agulhas de metal, tique-taque, tique-taque, tecendo em longas mantas o tempo da nossa vida. 
     Nessas reflexes, e observaes, mais uma vez constatei o que todo mundo sabe: vivemos a idolatria da juventude  e do poder, do dinheiro, da beleza fsica e do prazer. Muitos gostariam de ficar para sempre embalsamados em seus 20 ou 30 anos. Ou ter,  aos 60, "alma jovem", o que acho muito discutvel, pois deve ser bem melhor ter na maturidade ou na velhice uma alma adequada, o que no significa mofada e spera. 
     Por que a juventude seria a melhor fase da vida, como se jovem no tivesse problemas e sofrimentos, doenas e perdas, e no lutasse contra enormes presses da famlia, da turma, da sociedade, para ser e agir dessa ou daquela forma? O nmero de adolescentes que se suicidam ou tentam se matar  muito maior do que imaginamos. 
     Lembro que h muitos anos um adolescente conhecido se matou. Naquela ocasio, um menino de sua turma me disse em voz baixa, olho arregalado: "Ontem ainda a gente jogou bola junto na escola, e ele no disse nada, a gente no notou nada. Ser que eu devia ter percebido, perguntado? Quem sabe podia ter ajudado?" (Havia medo e aflio em seu olhar.) 
     Tentei explicar que no cabia ningum mais nesse buraco negro da alma do amigo morto, embora na nossa iluso uma palavra boa, um colo, um abrao, um pequeno adiamento, teriam podido ajudar. Quem se mata espalha ao seu redor uma zona de culpa insensata: esse fica sendo seu triste legado, talvez sua cruel vingana inconsciente. No notamos, no impedimos, nada fizemos, no porque no o amssemos, no nos importssemos, mas porque a gente  assim. Ou porque nada havia a ser feito, ser dito, apenas ser aceito com um rio de dvidas e culpas pelo resto dos dias. A juventude para ele, como para tantos, no foi a melhor fase da vida: foi o fim dela, desesperado e triste. 
     Por outro lado, maturidade pode ter uma energia muito boa, pensamento e capacidade de trabalho esto no auge, os afetos mais slidos e mais profundos, a capacidade de enfrentar problemas e compadecer-se dos outros mais refinada. Alis, amadurecer devia ser refinar-se. Passada (ou abrandada) a insegurana juvenil,  possvel desafiar conceitos que imperam, desatar alguns fios que nos enredam, limpar o p desse uniforme de prisioneiros, deixar de lado as falas decoradas, a tirania do que temos de ser ou fazer. Pronunciar a nossa prpria alforria: vai ser livre, vai ser voc mesmo, vai tentar ser feliz  seja l o que isso for. 
     Ento podemos murmurar, gritar, cantar. Podemos at danar. No h marcaes nem roteiro, mas a inquietante possibilidade de optar: cada minuto vale, o tempo que flui mostra o valor mximo das coisas mnimas  se eu parar para observar. 
     Portas continuam se abrindo: no apenas sobre salas de papelo pintado, mas sobre caminhos reais. Correndo pela floresta das fatalidades, encontramos clareiras de construir. De se renovar, no importa a cifra indicando a nossa idade. Descobrir o que afinal se quer  essencial.  raro.  possvel. E quando algum resolver no pagar mais o altssimo tributo da acomodao, mas dar sentido  sua vida, ver que a bruxa dos relgios no  inteiramente m. E vai entender que o tempo no s nega e rouba com uma das mos, mas, com a outra, oferece  at mesmo a possibilidade de, ao envelhecer, alargar ainda mais as varandas da alma.
LYA LUFT  escritora


1#5 LEITOR

MALALA
A incrvel reportagem "A pequena grande Malala" (16 de outubro), das jornalistas Thas Oyama e Tatiana Gianini, retrata a vida de uma menina paquistanesa que provavelmente no seria nada no mundo sem a persistncia e a coragem de ir contra o regime do Talib. Fiquei espantado com a histria de Malala, que sofreu um atentado, conseguiu se recuperar e, mesmo sabendo que ainda querem mat-la, persiste em ideais contrrios aos dos fundamentalistas. Podemos, sim, viver em um mundo harmonioso. Cada um deve ter o livre-arbtrio para escolher qual religio seguir. Pessoas que vivem em um pas onde no tm seus direitos assegurados (como no caso das meninas paquistanesas, que no tm direito  educao) realmente devem lutar por esse ideal. Que Malala e todas as meninas tenham o direito de estudar e expressar suas reflexes.
MOISS ARKALJI
So Paulo, SP

Realmente existem pessoas divinas que foram designadas para fazer a diferena na humanidade. Malala  uma delas. O mundo precisa  urgente  de pessoas ousadas assim, que desejam uma sociedade melhor e mais justa.
ELIANE MESQUITA NARUMIA
Santa F do Sul, SP

Malala  o exemplo de que o Brasil precisa. Sem violncia, sem baderna, ela est preocupando o Talib, em busca de igualdade para as jovens paquistanesas.
LUCAS S. PENA
Foz do Iguau, PR

Estou encantada com Malala, que teve bravura e coragem na luta para conseguir seus direitos, vontades e paz. Com garra, ela inspirou vrias pessoas.
DANIELLA NIGRI
So Paulo, SP

Uma mulher que queira ter educao para conseguir algo na vida no pode ser impedida!
SANDRA K. DAYAN
So Paulo, SP

Que prosperem as pessoas que querem o bem, como a menina Malala.
JOS EDUARDO ZAGO
Mau, SP

Malala  uma herona que merecia o Nobel da Paz, sem desmerecer os que j o ganharam. Essa jovem corajosa disse: "A educao  o caminho para acabar com o terrorismo". Sbias palavras, que me levaram s lgrimas. Parabenizo VEJA pela importncia dada ao assunto.
JOO GUILHERME FREITAS
Bento Gonalves, RS

Que a exemplar Malala seja uma grande primeira-ministra. O mundo precisa de mais gente como essa menina!
CLAUDINEIA REGINA BENTO
So Paulo, SP

GUSTAVO IOSCHPE
Fui professor por alguns anos e concordo com o artigo "Seu valor  determinado por seu salrio?'' (16 de outubro), de Gustavo Ioschpe, sobre a inexistncia de relao entre o salrio dos professores e o aprendizado dos alunos. Penso, porm, ter faltado um motivo fundamental, que realmente importa: o interesse dos alunos.
ROGRIO KALAB CASTELIO
Belo Horizonte, MG

Gostaria de destacar que os salrios dos professores no Brasil so injustos, pois muitos, para sobreviver, precisam ter jornadas de at sessenta horas semanais, trabalhando em lugares insalubres e, assim, comprometendo a sua sade fsica e mental.  necessria, sim, uma reforma que contemple vrios fatores, em especial a valorizao salarial de todos os professores, para que possam viver com dignidade e desenvolver um trabalho educacional digno para todos os brasileiros.
JANETE DA SILVA PIMENTEL
Boa Vista, RR

Sou professora e acho lamentvel a discrepncia entre os salrios dos profissionais brasileiros e os dos americanos. O mais lamentvel, contudo,  a correlao entre resultados obtidos e salrio para justificar o no merecimento dos professores brasileiros a melhores salrios.
TATIANE MACHADO
Umuarama, PR

CENSURA A BIOGRAFIAS
A reportagem "Mas no era proibido proibir?" (16 de outubro), de Srgio Martins, traz uma abordagem clara e direta de um tema sobre o qual alguns jornalistas, infelizmente, preterem se calar. Assim como nossos governantes atuais, os artistas mencionados na reportagem se intitulam "filhos da ditadura", entretanto agem da mesma forma que os militares, erroneamente, agiram no passado. O povo que no passado apoiou as ideias de Dilma Rousseff e Jos Dirceu ao som de Caetano e Chico hoje  a grande massa esmagada por esse governo corrupto. No entanto, os famosos "filhos da ditadura" gozam de um estilo de vida amplamente questionado por eles mesmos no regime militar.
GABRIEL HENRIQUE RAMPINI
Rio de Janeiro, RJ

Fiquei abismado com a reportagem. Nasci no fim dos anos 60, fiz faculdade nos anos 80, todos os meus "dolos" esto ali. Escuto uma rdio aqui em minha cidade que s toca msicas do "meu tempo'". Tenho um filho adolescente e, enquanto o levo  escola, travo uma batalha diria para convenc-lo de que as msicas dos artistas de hoje no se comparam com as do meu tempo. Porm, a hipocrisia do dinheiro faz tudo desmoronar. Tentei relevar por muito tempo o fato de Chico Buarque defender o regime cubano, mas os demais... Se lutaram contra qualquer tipo de represso, como podem censurar biografias? Se se sentirem lesados, que entrem na Justia e busquem uma reparao, mas jamais probam algo. O que essas biografias diro? Que tiveram vida promscua, ou se drogaram, ou sei l o qu? A cada dia, menos temos em que acreditar...
PAULO CEZAR ASSUMPO
Cuiab, MT

Triste incoerncia. Que lio eles esto levando de Joo Marcelo, filho da "deusa" Elis Regina! Parabns a VEJA, que sempre "mata a cobra e mostra o pau".
JOO ALDERNEY
Recife, PE

Naquele tempo eles eram contra a censura, pois no obtinham nenhum benefcio. Bastou colocar no poder gente deles, que s os favorece, e se tornam muito mais censores, muito mais ditadores e muito mais corruptos do que seus antigos algozes. D nojo ver gente como essa. Parabns ao filho de Elis Regina  esta que, no momento, deve estar dando reviravoltas ao ver velhos amigos agora virar ditadores.
MARIA ANGELA PELACHINI V. BURKERT
So Paulo, SP

VANDALISMO
Como coronel da Polcia Militar de Braslia h mais de 26 anos, estou entusiasmado com a Carta ao Leitor "O legtimo uso da fora" e a reportagem "A vitria da baderna"' (16 de outubro). Estamos precisando de meios de comunicao srios, que ressaltem a importncia da Polcia Militar do Brasil na manuteno da democracia. Ainda no temos leis fortes, que punam com rigor os baderneiros que destroem o patrimnio pblico e privado e ofendem a integridade fsica das pessoas. Porm, se a imprensa compreender, como fez VEJA, que no podemos permitir que, em um Estado democrtico de direito, a vontade da maioria seja engolida por uma minoria violenta, j teremos caminhado muito. A imprensa pode fortalecer as foras de segurana em suas atividades na proteo da democracia, fazendo o que VEJA fez ao dizer que uma coisa  se manifestar, outra  cometer crimes. Parabns pela belssima reportagem.
JOOZIEL DE MELO FREIRE
Comandante-geral da Polcia Militar do Distrito Federal
guas Claras, DF

Somos todos cidados e buscamos melhorias. O vandalismo no  a forma para consegui-las.
CORONEL ALVARO CAMILO
Vereador (PSD) e ex-comandante-geral da Polcia Militar no Estado de So Paulo
So Paulo, SP

Governadores e polcias subordinam-se  Constituio, e, por isso, as polcias devem necessariamente intervir com rigor para a preservao da ordem, valendo-se do uso proporcional e razovel de armas para proteger o direito de protestar e conter os baderneiros.
LINCOLN D'AQUINO FILOCRE
Diretor executivo do Instituto Brasileiro de Direito e Poltica de Segurana Pblica
Belo Horizonte, MG

S no consigo entender o motivo pelo qual a polcia simplesmente no os prende, j que eles so facilmente identificveis  por exemplo, pelo uso de mscaras.
JOS RUBENS DO AMARAL
Valinhos, SP

 totalmente incompreensvel a atitude dos governadores de So Paulo e do Rio de Janeiro ao no reprimirem na forma da lei e do direito a atitude terrorista desses bandos de insanos que esto agindo nesses estados.
RONALDE SEGABINAZZI
Piracicaba, SP

As autoridades so acuadas por quem ainda vive nos anos 60 do sculo passado e chama as PMs de "foras da represso".
Luiz CARLOS DE SOUZA
So Paulo, SP

Na excepcional Carta ao Leitor "O legtimo uso da fora", VEJA analisa de forma lcida os hediondos atos de selvageria dos black blocs e lidera na imprensa a defesa e o estmulo  ao de nossa polcia, que ficou paralisada por uma avalanche de crticas e condenaes. Precisamos resgatar a autoridade e o orgulho de nossos policiais na defesa da populao, como fazem as grandes democracias.
SOLANGE NOVELLI MEDINA
Rio de Janeiro, RJ

BOEING
Com relao  nota "Lobby turbinado'" (Holofote, 9 de outubro), a Boeing declara sua confiana em que a deciso da concorrncia do F-X2 ser tomada no tempo certo para o Brasil. Esclarece ainda que as informaes relatadas pela coluna no procedem: a presidente da empresa no Brasil, Donna Hrinak, no se reuniu com ministros, bem como no solicitou audincia com a presidente Dilma Rousseff; no haver exposio de rplica da aeronave F-18 Super Hornet no Parque Tecnolgico de So Jos Campos (SP); a campanha publicitria com o mote "Boeing e Brasil. Oportunidades infinitas" foi lanada em 30 de agosto em mbito nacional, com o intuito de mostrar como a empresa est presente na vida dos brasileiros h muitos anos e tem forte parceria com o pas.
ANA PAULA FERREIRA
Diretora de comunicao da Boeing Brasil
So Pauto, SP

SRGIO LAZZARINI
Lcida e realista a entrevista com o professor e diretor de pesquisas do Insper, Srgio Lazzarini (A volta do Estado Leviat", 16 de outubro). O PT teve muita sorte em suceder ao governo de Fernando Henrique Cardoso, que fez as reformas estruturais. Se no as tivesse feito, hoje o pas estaria em pior condio de governana.
SALVADOR VAZ
Guarapari, ES

Excelente a entrevista de pginas amarelas trazida por VEJA, que mais uma vez serve para abrir os olhos da sociedade brasileira pensante.  lamentvel ver a iniciativa privada que produz a riqueza no pas sujeita a um Estado intervencionista, crescentemente oneroso e ainda voltil no papel regulador. O gigante se arrasta h sculos sob a sombra da corte, apesar de sermos uma Repblica.
ROBERTO RINALDI JR.
So Paulo, SP

Engana-se redondamente o senhor Srgio Lazzarini, pois em termos de princpios econmicos e morais os militares so totalmente diferentes da presidente Dilma Rousseff e seu grupo. Comparar os militares com a camarilha do PT  uma ofensa  honra e  dignidade de patriotas probos, que acreditavam no trabalho e fizeram este pas ser a oitava potncia econmica do planeta, coisa que o petismo-lulismo no consegue nem manter, por absoluta falta de quadros com competncia tcnico-profissional e honestidade para tal.
PAULO DE SOUSA BASTOS
Belm, PA

CLUDIO DE MOURA CASTRO
O artigo "Uma revoluo no ensino. Outra?" (16 de outubro), de Cludio de Moura Castro, elucida uma situao real. A renovao destacada pelo articulista, com as melhores aulas do mundo que se aproximam do custo zero, pode sim fazer com que nossos educadores entendam que  preciso competir no mundo globalizado.
LAUDI VEDANA
Pato Branco, PR

J.R. GUZZO
Com o artigo ''Clientela ideal" (16 de outubro), J.R. Guzzo mostra de forma brilhante nossa peculiar mania de incorporar ao idioma tolices inventadas na Argentina. Alm da lista de palavras e expresses originrias do lunfardo, temos de engolir o mais novo vocbulo inventado pela senhora Cristina Kirchner: o odiado ''presidenta''. Dilma Rousseff achou bonito e imediatamente copiou a colega, exigindo ser chamada tambm de "presidenta''. Quanta bizarrice!
WILSON SANCHES GOMES
Curitiba, PR

GRAFENO
Muito interessante a reportagem ''O incio da era do grafeno" (9 de outubro). O grafeno substituir materiais e ser um aliado e tanto ao agregar mais eficcia ao cobre, ao alumnio, ao ao e  madeira.
SPARTACUS POZZOLINI
Divinpolis, MG

PARA SE CORRESPONDER COM A REDAO DE VEJA: as cartas para VEJA devem trazer a assinatura, o endereo, o numero da cdula de identidade e o telefone do autor, Enviar para: Diretor de Redao, VEJA  Caixa Postal 11079  CEP 05422-970  So Paulo  SP; Fax (11) 3037-5638; e-mail: veja@abril.com.br. Por motivos de espao ou clareza, as cartas podero ser publicadas resumidamente. S podero ser publicadas na edio imediatamente seguinte as cartas que chegarem  redao at a quarta-feira de cada semana.


1#6 BLOGOSFERA 
EDITADO POR KTIA PERIN kperin@abril.com.br 

RADAR
LAURO JARDIM
CINEMA
A empresa Zazen, de Marcos Prado e Jos Padilha, vai produzir um filme chamado Macabro, com oramento de 9,1 milhes de reais e captao de recursos na Ancine. O filme conta a histria de dois irmos, abusados na infncia, que cometem uma srie de assassinatos em Nova Friburgo. O longa s deve ser lanado em 2015.
www.veja.com/radar 

COLUNA
LEONEL KAZ
BIOGRAFIAS
Curiosa a sanha contra os ''bigrafos e editores que ganham fortunas"'. Parece o roto correndo atrs do esfarrapado, num pas em que a porcentagem de recursos na cultura no chega a milsimos do dinheiro pblico. Simples assim: em relao aos Estados Unidos, temos dez vezes menos bibliotecas e um ndice de leitura per capita dez vezes menor tambm. Por outro lado, temos o custo Brasil para tudo.
www.veja.com/leonelkaz 

DE NOVA YORK
CAIO BLINDER
IR
Os acenos diplomticos iranianos no devem ser confundidos com moderao. A palavra-chave  pragmatismo. Seu mensageiro  o novo presidente, Hassan Rouhani, um poltico sofisticado, preocupado com a capacidade de sacrifcio do regime islmico.
www.veja.com/denovayork 

NOVA TEMPORADA
O FIM DE GLEE
O produtor Ryan Murphy confirmou que a sexta temporada de Glee ser a ltima. Segundo Murphy, Rachel (Lea Michele) e Finn (Cory Monteith) eram os protagonistas da srie, e sua inteno, desde o incio, era encerrar Glee com uma histria focada no casal. A trama original mostraria Rachel fazendo sucesso na Broadway e estrelando um filme antes de retornar para Ohio, onde encontraria Finn trabalhando como professor na McKinley High. Com a morte de Cory, em julho, os produtores e roteiristas reformularam o final da srie. Murphy espera oferecer um desfecho que sirva de homenagem ao ator. 
www.veja.com/novatemporada 

RODRIGO CONSTANTINO 
ACOSTAMENTO: O RETRATO DO BRASIL
O sujeito que pega o acostamento em estradas, tentando passar para trs os que respeitam as regras, deveria sentir vergonha pelo seu ato. Mas a coisa  vista como to normal que um deles, quando eu no permiti que entrasse na minha frente, ficou furioso e reclamou. O culpado era eu, que seguia no caminho correto. Essa mentalidade precisa mudar. Caso contrrio, o retrato do pas no vai mudar. Seremos para sempre o gigante adormecido, esse pas maravilhoso que tinha tudo para ser um paraso, mas que no passa de um recordista mundial em homicdios e pobreza. H malandros demais. 
www.veja.com/rodrigoconstantino

SOBRE IMAGENS
HAYWOOD MAGEE
Ao lado da americana Life, a revista britnica Picture Post, criada em 1938, foi uma das mais importantes publicaes do fotojornalismo mundial. Um dos fotgrafos mais atuantes da Picture Post foi Haywood Magee (1900-1981), pioneiro na introduo das rpidas e leves cmeras de 35 milmetros na imprensa britnica. Na poca, os fotgrafos ingleses ainda usavam cmeras de grande formato, com filmes de chapa.
www.veja.com/sobreimagens 

 Est pgina  editada a partir dos textos publicados por blogueiros e colunistas de VEJA.com


1#7 EINSTEIN SADE  OS CAMINHOS PARA ENVELHECER BEM
Atividade fsica ajuda a evitar problemas no sistema musculoesqueltico. O ideal 
que ela comece na infncia.

     O esteretipo do idoso cheio de dores no corpo, com limitao de movimentos e vitimado por quedas, remete claramente aos problemas causados pela falta de cuidados com o sistema musculoesqueltico durante as fases anteriores da vida. Ossos, msculos, articulaes, cartilagens, tendes e ligamentos comeam a se desgastar a partir dos 30 anos de idade. Uma alimentao balanceada  essencial para a boa sade dessas estruturas. Mas mant-las em movimento por meio de atividade fsica  fundamental para retardar a degenerao e reduzir os riscos de osteoartrose e osteoporose, doenas cuja incidncia se eleva consideravelmente com o envelhecimento. 
     A osteoartrose  provocada pelo desgaste das cartilagens, que funcionam como um colcho que impede o atrito entre as extremidades sseas. Com a degenerao natural do envelhecimento, elas ficam mais finas e enrijecidas, perdendo a funo amortecedora. O contato da osso com osso pode provocar dores e, em alguns casos, deformidade.  
     Quadris, joelhos e a coluna vrtebral so as articulaes mais afetadas pela osteoartrose, que tem causa gentica,  degenerativa e est presente em 50% da populao com mais de 60 anos. No  possvel preveni-la, mas movimentar as articulaes estimula a circulao do lquido sinovial que lubrifica as cartilagens, contribuindo para retardar a instalao da doena.  
     O avano da idade tambm diminui a produo de massa ssea. Os ossos tornam-se mais frgeis e porosos, levando  osteoporose, doena que atinge principalmente mulheres aps a menopausa. Esse problema afeta cerca de um tero das mulheres na faixa entre 60 e 70 anos e dois teros daquelas acima dos 80 anos. 
     A osteoporose pode levar a fraturas espontneas e, consequentemente, a quedas, que hoje respondem por 70% das mortes acidentais de idosos. Atividades fsicas que promovam ganho de massa ssea ajudam a prevenir a doena e at a promover a reverso parcial em quadros j instalados. 
     Para chegar aos 60 anos sem as consequncias de um sistema musculoesqueltico negligenciado, a atividade fsica deve ser incorporada  rotina ainda na infncia e mantida ao longo da vicia. Caminhadas dirias durante o dia, alongamento e trabalho assistido de fortalecimento muscular so suficientes para garantir bem-estar e disposio. Contudo, at uma simples caminhada requer cuidados. Buscar orientao  recomendvel, seja para determinar o melhor tipo de trajeto, a postura correta ou o movimento mais adequado e com maior potencial de eficcia para cada pessoa.

Saiba mais sobre este e outros assuntos no site www.einstein.br
Sugira o tema para as prximas edies: paginaeinstein@einstein.br
Sua sade  o centro de tudo.
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Responsvel Tcnico:
Dr. Miguel Cendoroglo Neto - CRM: 48949
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2# PANORAMA 

     2#1 IMAGEM DA SEMANA  UM VAMPIRO EM ROMA
     2#2 DATAS
     2#3 HOLOFOTE
     2#4 SOBEDESCE
     2#5 CONVERSA COM DALCIDES BISCALQUIN  A F POR OUTROS MEIOS
     2#6 NMEROS
     2#7 RADAR
     2#8 VEJA ESSA

2#1 IMAGEM DA SEMANA  UM VAMPIRO EM ROMA
O corpo de capito nazista que executou italianos demora para ter destino final.

Como um vampiro que vaga insepulto, o corpo de Erich Priebke rodou em carro fnebre pela periferia de Roma durante uma semana.  fcil entender por que muita gente no queria saber de lhe prestar a misericrdia final: nem a Alemanha, onde nasceu 100 anos atrs e entrou para a SS, a tropa por excelncia do nazismo; nem a Argentina, onde viveu durante muitos anos depois da II Guerra Mundial, desfrutando da beleza gelada de Bariloche; muito menos a Itlia, para onde foi deportado e julgado por atrocidades do passado, mas beneficiado pelo confinamento domiciliar em razo da idade. Difcil  conceber que, do lado oposto aos protestos contra qualquer ato fnebre, havia manifestaes a favor de Priebke. Justamente o ex-capito encarregado de comandar uma atrocidade histrica, a execuo de 335 italianos em represlia a um atentado da resistncia em que morreram 33 soldados alemes. Seguindo o princpio da retaliao na base do "dez por um", com um excedente de cinco por engano, as vtimas eram trotskistas ou militantes presos de outros grupos da resistncia, moradores da rea do atentado e at um padre. Do total, 75 foram classificados simplesmente como "judeus". Conduzidos s Fossas Ardeatinas, entravam em grupos de cinco para levar um tiro na nuca. A entrada das cavernas vulcnicas depois foi dinamitada. Numa mensagem de alm-tmulo, ou aqum, pois o vdeo foi divulgado antes que seu corpo achasse o destino final, Priebke repetiu que "a execuo foi terrvel, mas era impossvel dizer no". Ao anunci-lo, seu advogado afirmou que ele se aproximou de quatro parentes de vtimas do massacre. No vdeo, Priebke reitera a fidelidade aos princpios fundamentais do nazismo, um "modo de ver o mundo ligado ao senso de amor-prprio e de honra". O vampiro ainda ronda.
VILMA GRYZINSKI


2#2 DATAS
MORRERAM
O treinador de futebol francs Bruno Metsu, que dirigiu a seleo do Senegal na Copa do Mundo de 2002, eliminada apenas nas quartas de final. Os senegaleses eram considerados os mais fracos do torneio. Logo antes da partida inaugural contra a Franca, campe em 1998, Metsu reuniu os jogadores no vestirio e os provocou com os palpites negativos que saram na imprensa. "Vo brigar como lees", avisou. E assim foi. O Senegal venceu a Frana, empatou com Dinamarca e Uruguai, ainda na primeira fase, e eliminou a Sucia. Foi desclassificado pela Turquia. O cabeludo Metsu era ele prprio um azaro: antes de comandar a seleo africana, passara vinte anos pulando de um time francs inexpressivo para outro. Dia 15, aos 59 anos, de cncer, em Coudekerque-Village.

O ex-ministro da Fazenda Karlos Heinz Rischbieter. Ele ocupou o posto durante o governo do ltimo presidente do ciclo militar, Joo Figueiredo, por menos de um ano, de maro de 1979 a janeiro de 1980. Seu principal ato foi suprimir a incidncia do imposto de renda na fonte sobre o 13 salrio. Foi tambm presidente da Caixa Econmica Federal e do Banco do Brasil. Engenheiro civil por formao, atuou ainda como escritor e tradutor. Dia 17, aos 85 anos, de enfisema pulmonar. em Curitiba.

O alemo Hans Riegel, o magnata dos ursinhos de goma. Riegel fez da pequena fbrica de doces de sua famlia em Bonn, a Haribo, um fenmeno internacional com um movimento de quase 3 bilhes de dlares anuais. Dia 15, aos 90 anos, de parada cardaca, em Bonn.

O ator americano Ed Lauter, o mordomo do filme O Artista. Com uma carreira de cinco dcadas, fez mais de 200 participaes entre cinema e televiso. Muitas vezes viveu papis violentos, como o do guarda implacvel que tornou a vida de Burt Reynolds um inferno em Golpe Baixo (1974). Dia 16, aos 74 anos, de cncer causado pelo contato com amianto, em Los Angeles.

 DOM|13|10|2013
TEVE ALTA
a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, cinco dias depois da cirurgia para retirar um hematoma do crebro causado por um traumatismo craniano em agosto. As circunstncias do acidente no foram esclarecidas. A presidente deve manter um rgido controle de seu cotidiano pelos prximos trinta dias.

 SEG|14|10|2013
DIVULGADA 
a contratao da executiva americana Angela Ahrendts pela Apple.  frente da grife de moda Burberry por oito anos, ela multiplicou as vendas pela internet e em lojas fsicas da marca inglesa, cujo smbolo so os trench coats. Na Apple, ser vice-presidente do setor de vendas.

 QUA|16|10|2013
CONCEDIDA
a cidadania honorria canadense  paquistanesa Malala Yousafzai, de 16 anos. Malala, que enfrentou a milcia islmica de seu pas para defender o direito de estudar, foi indicada ao Nobel da Paz deste ano. 

 SEX|18|10|2013
RECEBEU
uma notificao de dvida equivalente a 115 milhes de reais do Fisco italiano o ex-jogador de futebol Diego Maradona, por evaso fiscal. O argentino estava na Itlia para assistir a um jogo entre Roma e Napoli. A dvida  do tempo em que ele jogou pelo Napoli, nos anos 80. 


2#3 HOLOFOTE
OTVIO CABRAL

 DO TRIBUNAL S URNAS?
Emissrios de Eduardo Campos e Marina Silva vo procurar o presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, para saber se ele tem disposio de se filiar ao PSB para disputar o governo do Rio de Janeiro ou do Distrito Federal. A motivao para a consulta foi a declarao de Barbosa na semana passada de que no descarta trocar o Judicirio pela poltica. Como magistrado, ele pode entrar em um partido at o incio de abril, seis meses antes do pleito.

 NA ESTRADA COM ACIO
Pressionado pela unio de Eduardo Campos e Marina Silva, o candidato do PSDB  Presidncia, Acio Neves, iniciar uma srie de viagens para tentar se consolidar como o principal nome da oposio. Sua estratgia  produzir eventos populares, como viajar na boleia com um caminhoneiro ou acompanhar uma dona de casa s compras, que sero transmitidos pelo site do partido. A primeira parada ser no Amazonas e no Par, no fim deste ms.

 ALEMES DA FIEL
A Alemanha escolheu o Centro de Treinamento Joaquim Grava, do Corinthians, como sua sede na Copa do Mundo. O anncio oficial depende apenas da definio da tabela do torneio, que ocorrer em 6 de dezembro, na Costa do Saupe (BA). Esse evento ser a ltima oportunidade para que os demais 69 centros de treinamento credenciados pela Fifa conquistem as outras trinta selees estrangeiras  o Brasil ficar na Granja Comary (RJ). H desde instalaes de times tradicionais, como Flamengo e So Paulo, at outras preparadas s para a Copa, como as de Jaguarina (SP) e Viamo (RS). 

 PUBLICIDADE CHAPA-BRANCA
A Cmara de So Paulo, presidida pelo petista Jos Amrico Dias, gastar 6,5 milhes de reais em uma campanha publicitria sobre o Plano Diretor, projeto que modifica as regras de construo e  prioritrio para recuperar a popularidade do prefeito Fernando Haddad. O pacote inclui anncios no intervalo da novela das 9 da Rede Globo, Amor  Vida, o espao mais caro da televiso brasileira, e ser veiculado em quatro canais e nas rdios mais ouvidas da cidade a partir desta semana.

 UM CANAL DE OPOSIO
Depois que a Globovisin, a nica emissora independente da Venezuela, foi para as mos de chavistas, o maior lder oposicionista do pas, Henrique Capriles, desapareceu do noticirio. Para conseguir espao para apoiar seus candidatos nas eleies municipais de dezembro, ele criou o prprio canal na internet, a Capriles TV. Com a iniciativa, tornou-se o poltico latino-americano mais popular no Twitter, com 3,6 milhes de seguidores.

 MINISTRO EM TESTE
Interino no Ministrio dos Portos, o economista Antonio Henrique Silveira ser colocado em teste nas prximas semanas. Dilma Rousseff o escalou para reverter as reaes negativas, at entre aliados, ao modelo de concesses para os portos de Salvador (BA) e de Paranagu (PR). Ele ter audincias com os governadores Jaques Wagner (PT-BA) e Beto Richa (PSDB-PR), alm de empresrios do setor. Caso salve a segunda rodada de licitaes dos portos, ser efetivado no cargo.

ELES QUEREM JOGAR
A oito meses da Copa do Mundo, dois atacantes brasileiros que esto em baixa na Europa tentam mudar de clube para jogar com regularidade e conquistar uma vaga entre os 23 de Luiz Felipe Scolari. Robinho, que esquenta o banco do Milan, quer voltar para o Brasil e est prximo de acertar com o Fluminense.  um caminho semelhante ao que fez em 2010, quando trocou o Manchester City pelo Santos e conquistou uma vaga na Copa. J Lucas, reserva no milionrio Paris Saint-Germain, negocia um emprstimo com times de segunda linha da Inglaterra e da Espanha para tentar manter seu espao no grupo de Felipo.


2#4 SOBEDESCE
SOBE
 Tablet na campanha - A um ano da eleio, o governo federal ampliou a lista de bens que podem ser comprados com subsdio no programa Minha Casa Melhor, incluindo at tablets e micro-ondas.
 Bsnia - O pas, resultante da dissoluo da Iugoslvia, em 1992, classificou-se para sua primeira Copa do Mundo de futebol.
 Google - O preo das aes da empresa de tecnologia ultrapassou a barreira dos 1000 dlares.

DESCE
 Mega-Sena - Um apostador de Ponta Grossa, no Paran, perdeu o prazo, que j havia sido prorrogado, para retirar um prmio de 23 milhes de reais.
 Cristina Kirchner - Trs em cada quatro argentinos no confiam nas informaes sobre a sade da sua presidente, operada h duas semanas.
 frica - O Prmio Mo Ibrahim, que agracia com 5 milhes de dlares lderes africanos por aes de boa governana, ficou sem vencedor pela quarta vez em cinco anos.


2#5 CONVERSA COM DALCIDES BISCALQUIN  A F POR OUTROS MEIOS
Padre que largou a batina para se casar agora vende cartes pr-pagos, do tipo em que se raspa um cdigo, com oraes e mensagens filosficas.

O que h nesses cartes? 
Falo de questes do dia a dia e de gente que larga algo importante na vida para poder ser feliz.  o meu caso, que era padre quis ter filho e esposa.

Como conheceu sua mulher, a jornalista Mariana Godoy, da GloboNews?
Eu a procurei para elogiar uma matria. Ficamos amigos e depois de oito meses ela disse que estava gostando de mim.

Padres preocupados com mulheres e filhos no seriam afetados em sua dedicao religiosa?
No d para dividir ateno entre a igreja e a famlia. A f precisa ser muito intensa e no h tempo para outras questes. Nunca levantei a bandeira do fim do celibato.

Mas existe a possibilidade de uma nova abordagem, agora, com o papa Francisco?
Celibato no  dogma de f. No me entusiasmo por levar adiante essa questo, mas talvez ela seja fundamental para a vitalidade do futuro da Igreja.

Quando um padre diz que vai se casar, sente solidariedade dos colegas?
Senti 60% de aceitao, 30% de incmodo e 10% de rejeio absoluta.

Do que sente falta do tempo de padre? 
De ter poucas roupas e uma mala antiga. A simplicidade traz leveza.


2#6 NMEROS
82.000 dlares, cerca de 180.000 reais,  o valor do metro quadrado em coberturas de dois prdios de alto padro em construo em Manhattan, Nova York, um novo recorde. O preo de cada imvel ficar em torno de 90 milhes de dlares.
60.000 reais vale o metro quadrado da cobertura mais cara do Brasil, um dplex de 1000 metros quadrados na Avenida Vieira Souto, com vista para o mar, no Rio de Janeiro.
208% foi a valorizao dos imveis no Rio e 154% em So Paulo nos ltimos cinco anos, ante uma alta de apenas 6,3% em Nova York.


2#7 RADAR
LAURO JARDIM ljardim@abril.com.br

 BRASIL
O CUSTO DO VANDALISMO
Desde junho at sexta-feira passada, cerca de 430 agncias bancrias foram destrudas pela ao dos vndalos. O total do prejuzo  estimado em 130 milhes de reais.

 ELEIES 20 14
NEM PENSAR
Dilma Rousseff passou um pito federal em Lindbergh Farias. No quer que ele repita, nem em sonho, que aceita Eduardo Campos em seu palanque em 2014, alm da prpria Dilma. O candidato ao governo do Rio de Janeiro prometeu se comportar.

UMA MULHER PARA ACIO
Se a escolha do vice-presidente da chapa de Acio Neves dependesse do marqueteiro, Renato Pereira, a vaga seria de uma mulher.

 GOVERNO
SAIU MAS NO SAIU
Roberto Amaral, vice-presidente do PSB, de fato, continua nos conselhos de administrao do BNDES e Itaipu.  Mas registre-se que ele entregou a Dilma Rousseff no dia 9 sua carta de demisso. S no foi ainda substitudo.

 TEMPO DE ELEIO 
Como falta pouco para 2014, no teve jeito: Dilma Rousseff cedeu e o PR vai tomar conta da Valec, a estatal que cuida da construo e operao das ferrovias federais. O partido indicar o presidente e a diretoria. A negociao foi feita por Aloizio Mercadante e o martelo batido, claro, por Dilma.

OBRAS QUE NO ANDAM
Em 23 de janeiro, quando apareceu na TV para bancar a reduo da tarifa de energia eltrica, Dilma Rousseff asseverou: "Com a entrada em operao de novas usinas e linhas de transmisso, vamos aumentar em mais de 7% nossa produo de energia; elas vo nos permitir dobrar, em quinze anos, nossa capacidade instalada de energia eltrica". E finalizou, retumbante: "Neste ano vamos pr em funcionamento mais 8500 megawatts de energia". Bem, de acordo com dados do prprio governo, at agora foram agregados  gerao 50% do prometido. Na gerao e na transmisso de energia, apenas 29% e 31% das obras esto no prazo. Nas linhas de transmisso, o atraso mdio  de um ano. Nem em sonho h chance de a promessa ser concretizada.

 ECONOMIA
MAIS ENXUTA
A OGX, que recentemente demitiu 150 funcionrios, prepara-se para novo enxugamento. Mais oitenta, dos 180 atuais, deixaro a petroleira nas prximas semanas.

PARA ACALMAR O MERCADO
Antonio Palocci anda conversando mais do que nunca com os grandes empresrios e banqueiros. No se sabe se autorizado, mas j  capaz de discorrer sobre a equipe econmica de um segundo governo Dilma: Alexandre Tombini iria para o Ministrio da Fazenda e, para o seu lugar, Luiz Awazu Pereira da Silva, atual diretor da rea externa do BC.

AT QUE ENFIM
O reajuste de combustveis ser examinado na reunio do conselho de administrao da Petrobras de novembro. Neste caso, "examinado" significa "aprovado".

BRIGA BAIANA
Por trs dos intensos lobbies em torno das regras do leilo de concesso dos  aeroportos do Galeo e Confins esto os dois gigantes baianos da construo e servios, a Odebrecht e a OAS. A Odebrecht quer que as regras do edital sejam mantidas; a OAS luta para alter-las e, assim, poder participar do leilo. A propsito, o TCU est novamente debruado no tema. H chance de mudanas no modelo.

TERMMETRO EXTERNO
O humor dos investidores internacionais em relao ao Brasil melhorou um pouco. Como resume um banqueiro: "Estamos mal em relao ao que poderamos estar, mas, quando o investidor olha o mapa-mndi, no v nada mesmo muito excitante".

 FUTEBOL
EXEMPLO PARANAENSE
O futebol carioca , disparado, o de pior gesto financeira do Brasil.  o que revela uma pesquisa indita da Pluri Consultoria que analisou o balano financeiro de 23 clubes do pas entre 2007 e 2012. Vasco, Fluminense, Botafogo e Flamengo acumularam prejuzo de 1,04 bilho de reais no perodo. O Estado de So Paulo fica logo atrs no ranking, com seis clubes e 363,4 milhes de reais no vermelho. Os paranaenses Coritiba e Atltico so os dois nicos times com superavit no perodo  64,1 milhes de reais.

QUEDA DE BRAO
Por pouco a Bahia no perdeu o sorteio da Copa do Mundo, marcado para dezembro. A Fifa queria 15 milhes de reais do governo baiano para realizar o evento, mas conseguiu arrancar apenas 6,4 milhes de reais de Jaques Wagner. A Fita ameaou com um plano B, mas recuou.

 TURISMO
MIAMI VERSUS BUENOS AIRES
Apesar do dlar mais alto do que h um ano, Miami (com 11% do total) e Orlando (8,8%) desbancaram Buenos Aires como o destino internacional mais procurado pelos brasileiros para o rveillon. De acordo com um levantamento indito da Decolar.com, baseado na venda de passagens areas at 30 de setembro, Nova York (8,2%) aparece como o terceiro objeto de desejo dos brasileiros. Buenos Aires, lder em 2012, surge agora como a  quarta colocada, com 7,8% do total das passagens vendidas.

 LIVROS
MAIS REVELAES
Revelaes e documentos do ex-espio da CIA Edward Snowden estaro em um livro a ser lanado simultaneamente em todo o mundo em 2014. A Leya acaba de comprar os direitos de The Snowden Files, escrito por Luke Harding, do The Guardian, que, junto com Glenn Greenwald, teve acesso aos arquivos da CIA. 

 TELEVISO
AUTORIZADA E REMUNERADA 
H mais do que uma biografia no autorizada vetada por Roberto Carlos nos ltimos anos. A Globo tenta h tempos o seu o.k. para fazer uma minissrie sobre ele. J ofereceu  sem sucesso  10 milhes de reais. 


2#8 VEJA ESSA
Na poltica e na vida, voc s pode julgar as coisas pelos fatos. Por enquanto, no houve mudana no Ir. Os fatos contradizem os discursos. Se os iranianos dizem no querer bombas nucleares, por que desenvolvem msseis? -  SHIMON PERES, presidente de Israel, em entrevista  Folha de S.Paulo; em negociaes em Genebra, o Ir aceitou que sejam feitas inspees-surpresa em suas usinas nucleares, em troca da suspenso de sanes econmicas ao pas.

O governo continua, at prova em contrrio, com uma postura geral muito fechada, antiquada. Repetindo muita coisa que a gente j viveu, principalmente nos anos 70, no governo Geisel. - ARMNIO FRAGA, ex-presidente do Banco Central, falando ao jornal O Estado de S. Paulo.

Eu estava na concentrao e a me ligou o empresrio dos Beatles, dizendo que eles queriam fazer um show para a gente. Mas a comisso tcnica vetou. (...) Um dirigente falou: 'No vou deixar esses cabeludos entrarem aqui'. - PEL, na coletiva de lanamento de seu livro 1283, que trata de sua trajetria (o nmero-ttulo se refere  quantidade de gols feitos pelo Rei)

Ele (Cristiano Ronaldo) tem um corpo fantstico. - ARNOLD SCHWARZENEGGER, ator e ex-governador da Califrnia, referindo-se ao craque do Real Madrid. Schwarzenegger foi  capital da Espanha para promover uma competio de fisiculturismo.

Esse prmio (o Nobel da Paz) deveria ter sido dado a mim. - BASHAR ASSAD, ditador srio, falando ao jornal libans Al Akhbar, que apoia seu governo; quem ganhou a distino foi a Organizao para a Proibio das Armas Qumicas (Opaq).

As pessoas que querem concorrer ao cargo tm de se preparar, estudar muito, ver quais so os problemas do Brasil, ter propostas. DILMA ROUSSEFF, presidente da Repblica, em entrevista s rdios mineiras Itatiaia e Panorama, durante visita a Itajub (MG).

Ela deu um conselho de professora. Eu acho que ela d um conselho muito bom, porque aprender  sempre uma coisa muito boa. O difcil so aqueles que j no tm mais o que aprender e s conseguem ensinar. - MARINA SILVA, ex-senadora, recm-filiada ao PSB de Eduardo Campos, em declarao dada na cidade do Recife.

No vamos fazer do debate do Brasil um ringue. No  o meu jeito nem o de Marina de fazer poltica. - EDUARDO CAMPOS, governador de Pernambuco e presidente do PSB, partido pelo qual pode vir a disputar a Presidncia da Repblica, aps reunio em Braslia com a ex-senadora.

No futuro, a mdio prazo, eu posso pensar sobre isso. - JOAQUIM BARBOSA, presidente do STR em resposta a uma pergunta sobre seu eventual interesse na carreira poltica, durante congresso promovido pela Associao Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), no Rio de Janeiro.

Se algum queria trabalhar com a gente, perguntvamos se tinha carro. Se tivesse, estava contratado. Ele poderia ir ao aeroporto buscar filmes... Era uma explorao total. - RENATA DE ALMEIDA, diretora da Mostra Internacional de Cinema de So Paulo, lembrando, no jornal Valor Econmico, os primeiros tempos do evento, criado em 1977 pelo crtico Leon Cakoff (1948-2011) e que chega  sua 37 edio.
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3# BRASIL 

	3#1 A POLTICA MENOR
	3#2 A LIBERTAO DOS CACHORRINHOS
	3#3 SIM, ELE SABIA
	3#4 BATEU NA TRAVE
	3#5 O TALENTOSO GIM ARGELO 
	3#6 MANDATO ALUGADO
	3#7  PRECISO MUITA F
	3#8 TRILHA DE DINHEIRO

3#1 A POLTICA MENOR
A velha poltica e a poltica velha vo continuar permeando a disputa em 2014, apesar das palavras de ordem em sentido contrrio.
DANIEL PEREIRA

     Desde junho, quando milhes de brasileiros foram s ruas para protestar contra a corrupo e a pssima qualidade dos servios prestados  populao, governantes e parlamentares passaram a entoar a mesma cantilena em defesa de uma "nova poltica". Da direita  esquerda, incluindo os partidos cuja nica ideologia  beneficiar-se de recursos pblicos, todos prometem fazer mais, fazer diferente e fazer de forma republicana. At agora, nenhum poltico foi capaz de explicar como a eficincia e a moralidade sero, enfim, apresentadas  nao. No importa, no faz diferena. O acirramento da corrida presidencial j deixou claro que o discurso renovador no passa de balela e mero marketing eleitoral. No mundo real,  a "velha poltica"  movida a engodos oficiais, acordos de convenincia e troca de favores  que vai continuar a ditar as regras do jogo. Na semana passada, a presidente Dilma Rousseff, candidata  reeleio, entregou  populao, na Bahia, casas sem gua nem luz. J o governador de Pernambuco. Eduardo Campos, favorito no PSB para concorrer ao Planalto, inaugurou uma escola que funcionava havia meses. 
     Atos assim, pensados para servir mais de palanque e menos de prestao de contas, so uma tradio nacional. Era uma marca do ex-presidente Lula, de quem Dilma e Campos foram ministros, percorrer o pas para assinar ordens de servio e inaugurar trechos de obras consideradas prioritrias, mas jamais concludas, como a transposio do Rio So Francisco. Mas  outro hbito da velha poltica  compartilhado por todos os presidentes eleitos aps a redemocratizao  que chama ateno nessa suposta nova fase. Apesar das promessas de moralizao, os principais concorrentes  Presidncia disputam a peso de ouro o apoio de cones da barganha, acusados de corrupo e figuras notrias por atentar contra o Cdigo Penal. Tudo sem constrangimento. Porta-bandeira da nova poltica, a ex-ministra Marina Silva, que fechou uma aliana com Eduardo Campos para 2014,  crtica feroz do fisiologismo e, na semana passada, acusou a base governista de chantagear a presidente Dilma. O PMDB  o principal expoente do tal fisiologismo e da tal base. Seria natural, portanto, que Campos no o cortejasse. Seria, mas ocorre exatamente o contrrio. 
     O governador sabe que o PMDB dificilmente deixar de apoiar a presidente, mas quer contar com a ajuda de velhas raposas do partido nos estados. A lista de caciques cobiados por Campos inclui o senador Jader Barbalho, o ex-governador Iris Rezende e o ex-deputado Geddel Vieira Lima. Barbalho j renunciou uma vez ao mandato de senador, para fugir da cassao, depois de ser acusado de surrupiar verbas pblicas. Pelo mesmo motivo, passou alguns dias na priso. Geddel  conhecido pelo apetite voraz. Sua insatisfao com Dilma decorre, entre outras razes, do fato de ocupar atualmente uma vice-presidncia da Caixa Econmica Federal e no um ministrio, como desejava. Campos negocia com outros partidos pilhados em irregularidades.  o caso do PDT, presidido por Carlos Lupi, que foi demitido por Dilma do Ministrio do Trabalho, em 2011, sob a acusao de desviar recursos da pasta para entidades controladas por colegas de partido. O assdio do PSB provocou a reao imediata de Dilma. Neste ano, ela aposentou a faxina tica, redimiu Lupi e devolveu ao grupo poltico do pedetista o comando do ministrio. 
     Apesar de os polticos insistirem na ladainha da "aliana programtica", nenhuma negociao ou acordo em curso passa pela discusso de propostas para desenvolver o pas. Desde o fim da ditadura militar, a poltica nacional trocou o debate de mrito e o convencimento pela compra de apoios com cargos e financiamento eleitoral. A regra do jogo  clara: monta a maior aliana quem consegue pagar mais pelos votos em plenrio e pelo tempo de televiso dos 32 partidos existentes. A prtica reduz a poltica de um poderoso instrumento de transformao, a servio da populao, a um grande negcio, em benefcio dos poderosos. Nesse saldo de varejo, quem detm a caneta presidencial leva vantagem. Dilma sabe disso. Ela aproveitar a reforma ministerial para distribuir pedaos da administrao a legendas e, assim, tentar costurar a maior coligao eleitoral. A ideia  que o rateio contemple, por exemplo, o PTB. O partido  chefiado de fato pelo deputado cassado Roberto Jefferson, delator do mensalo condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a sete anos de priso. O PTB j tem uma vice-presidncia do Banco do Brasil. Agora, o lder do partido no Senado, Gim Argello, sonha ser indicado para ministro do Tribunal de Contas da Unio (veja a reportagem na pg. 67). 
     Pr-candidato do PSDB  Presidncia, o senador Acio Neves ainda faz pouca campanha em pblico, mas tambm  briga nos bastidores por uma aliana com partidos dispostos a vender seus respectivos tempos de TV. Acio aposta as fichas numa parceria com o Solidariedade e com o diretrio do PMDB no Rio de Janeiro, liderado pelo governador Srgio Cabral, um dos alvos prediletos das manifestaes populares. O Solidariedade  comandado pelo deputado Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Fora, espcie de Midas do sindicalismo de resultados. A sigla foi criada justamente para mercadejar seu apoio na prxima eleio.  mais uma legenda de aluguel e de convenincia, autorizada a funcionar pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) apesar de fartas evidncias de ter fraudado fichas de apoio  sua criao. Como o embate ainda  travado na seara da velha poltica, jogadores experientes resistem a deixar o campo. Na semana passada, o ex-governador Jos Serra mostrou que ainda nutre o sonho de ser o candidato do PSDB  Presidncia. J o ex-presidente Lula manteve conversas com polticos, empresrios e representantes de movimentos sociais. Lula e Serra so sombras constantes sobre Dilma e Acio. Resta saber se a traio, outro trao tpico da velha poltica, far vtimas em 2014. 


3#2 A LIBERTAO DOS CACHORRINHOS
O que j  comum na Europa e nos Estados Unidos chega ao Brasil: o resgate de animais usados como cobaias.

     Na madrugada de quinta para sexta-feira da semana passada, uma centena de pessoas invadiu a sede do Instituto Royal, laboratrio de pesquisas instalado em So Roque, a 62 quilmetros de So Paulo. Numa ao rpida, elas arrombaram os portes, depredaram as instalaes e libertaram 250 ces da raa beagle e cinquenta coelhos, usados em testes de produtos cosmticos e farmacuticos. H trs anos ONGs de defesa dos animais tentam impedir que o Royal continue a trabalhar com cobaias. No ano passado, uma denncia feita pelos militantes levou o Ministrio Pblico a abrir uma investigao e visitar o local, mas nenhuma irregularidade foi encontrada. O Brasil faz parte de um grupo cada vez menor de pases que autorizam testes em animais, inclusive a dissecao deles vivos. 
     No fim de semana anterior, um grupo de quinze militantes decidira acampar diante do instituto. Logo o protesto se tornou um desses movimentos inflados pelas redes sociais. Na noite de quinta-feira, a impacincia da multido e o boato de que os animais seriam retirados da clnica levaram  invaso. "Ficamos desesperados quando comeamos a ouvir gritos e uivos dos ces, que estavam sendo colocados em Kombis", diz a professora paulistana Beatriz Soares, que acompanha o caso desde o incio. Os animais retirados da clnica foram levados nos carros dos manifestantes. A atriz  Luisa Mell, veterana na militncia em defesa dos animais, ficou com metade dos cachorros. 
     O movimento contra maus-tratos em animais, especialmente quando utilizados como cobaias na indstria farmacutica ou criados para a produo de pele, tem dimenses globais. S nos Estados Unidos, foram atacadas oito fazendas de criao de minks e libertados mais de 10.000 animais desde julho. No Brasil, raras vezes os militantes recorrem  violncia. "Foi um ato de terrorismo", na definio da gerente do Royal, Silvia Ortiz. A polcia, por sua vez, pretende abrir inqurito por furto dos cachorros. 
     Os ativistas pregam a proibio do uso de animais em pesquisas cientficas. Embora existam alternativas na rea cosmtica, como o uso de peles sintticas, na medicina os cientistas alegam que  praticamente impossvel a substituio dos bichos, sob pena de deter o avano da cincia. De qualquer forma, a repercusso do movimento chegou ao ponto de empresas que no fazem testes em animais, como a brasileira Natura, adicionarem essa informao s suas embalagens. A Unio Europeia probe provas de cosmticos em bichos desde 2009, e os Estados Unidos praticamente baniram o uso de chimpanzs. Novas manifestaes esto marcadas em frente ao Instituto Royal. "Queremos que campos de concentrao como esse sejam fechados", diz a professora Beatriz. A inteno  que as futuras manifestaes sejam pacficas. No se deve contar com isso. Os integrantes dos black blocs, que aproveitam qualquer oportunidade para iniciar um quebra-quebra, j confirmaram presena. 


3#3 SIM, ELE SABIA
Assessores do Planalto so exonerados por tentar sabotar a investigao sobre a ex-secretria Rosemary Noronha. O ministro que defendeu a ao agora diz que no sabia.
ROBSON BONIN

     O ministro Gilberto Carvalho, secretrio-geral da Presidncia, j deu provas de que  um assessor dedicado. Ele chefiou o gabinete do presidente Lula durante oito anos, perodo em que acompanhou de muito perto tudo o que se passava nos bastidores do governo  das questes republicanas s nem tanto. Na vspera do desfile de 7 de setembro de 2009, por exemplo, a ento chefe do gabinete da Presidncia da Repblica em So Paulo, Rosemary Noronha, enviou uma mensagem ao cerimonial do Palcio do Planalto: "No foi autorizada minha presena e de meu acompanhante no camarote do PR (presidente da Repblica). Gostaria de saber de quem partiu a restrio? Ou vou no do PR, ou simplesmente no vou. Desculpe o jeito, mas estou muito ofendida". Rose, como se sabe, no era uma qualquer. Ningum ousava incomod-la, muito menos ofend-la, ntima de Lula desde os tempos de sindicalismo, ela acompanhava o presidente nas viagens internacionais e gozava de privilgios nicos, a ponto de ser autorizada a se hospedar no quarto presidencial do Palazzo Pamphili, a sede da Embaixada do Brasil na Itlia, durante um passeio por Roma. Diante da "ofensa" do camarote, Lula chamou Gilberto Carvalho a sua sala e mandou que arrumasse um lugar para ela ao seu lado. Tudo resolvido sem maiores danos  at que surgiu um problema muito mais delicado. 
     A ex-secretria tornou-se alvo de uma investigao da Casa Civil no fim do ano passado, logo aps ter sido flagrada pela polcia ajudando uma quadrilha especializada em vender facilidades no governo. A apurao mostrou que ela usava a intimidade com Lula para se locupletar do poder. A sindicncia tambm reuniu provas de enriquecimento ilcito contra Rosemary, que acabou banida do servio pblico. Antes desse desfecho, porm, Gilberto Carvalho foi outra vez acionado para tentar conter eventuais danos. O primeiro alvo foi a presidente da Repblica. Os tcnicos da pasta de Carvalho encaminharam ofcio ao gabinete questionando Dilma Rousseff sobre a instaurao da sindicncia na Casa Civil, que, segundo eles, no teria competncia para investigar Rosemary. Depois, juntaram ao processo um documento no qual listavam uma srie de supostas falhas cometidas pelos investigadores e pediam que a apurao fosse transferida para a Secretaria-Geral  a senha para sepultar o trabalho. 
     O plano de Carvalho naufragou quando a prpria presidente foi alertada por assessores da existncia de uma investigao paralela. Dilma desconfiou que havia algo esquisito acontecendo e determinou que a sindicncia prosseguisse. A tentativa de sabotar a investigao gerou um grande mal-estar no Palcio do Planalto. A ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, exigiu providncias. E a corda arrebentou, mas apenas no lado mais frgil. O coordenador-geral de Correio, Torbi Rech, e seu superior, o secretrio de Controle Interno, Jerri Coelho, foram exonerados no fim do ms passado. A explicao: os dois  por sua conta e risco  teriam decidido desafiar a presidente Dilma e Gleisi Hoffmann. Gilberto Carvalho, claro, no sabia de nada. Na verso do ministro, ele teria at ficado constrangido com os auxiliares. Mas no e essa a verso de um dos envolvidos na investigao. Sob a condio de ter a identidade preservada, o funcionrio confirmou que o ministro era informado com antecedncia sobre cada passo do plano de sabotagem. E no s ele. "O ministro e o secretrio executivo sabiam de todos os passos do processo. Quando foi emitida a primeira nota tcnica, apontando problemas na Casa Civil, houve at uma turbulncia com a Gleisi". conta o servidor. 
     Na semana passada, a assessoria da Secretaria-Geral reafirmou que Gilberto Carvalho demitiu os dois auxiliares porque eles "inexplicavelmente adotaram todas as medidas sem consultar qualquer um de seus superiores". Num arroubo de indignao, explicou que o envio do documento que tentava sabotar a sindicncia "exps o ministro" e era "extremamente inoportuno". E completou: "O ministro sequer tomou conhecimento da nota e defendia a apurao da conduta pela Casa Civil e pela CGU". Sem dvida, uma mudana radical de postura, algo que beira a amnsia. Em maio, quando VEJA revelou a existncia da operao paralela, a pasta no s confirmou que sabia da operao como defendia com unhas e dentes os servidores. Em um comunicado, a assessoria de Carvalho afirmou que os tcnicos haviam atuado no estrito "exerccio das suas atribuies legais" com a inteno de "supervisionar as atividades de correio" no caso Rosemary. Para conter os danos, desta vez foi preciso sacrificar dois subordinados. 


3#4 BATEU NA TRAVE
O Ministrio Pblico quer que a Fifa devolva 216 milhes de reais gastos pelos estados brasileiros em obras e servios temporrios na Copa das Confederaes.
RODRIGO RANGEL

     Para sediar a Copa do Mundo no ano que vem, o governo brasileiro aceitou uma srie de exigncias da Fifa, algumas justas, outras questionveis, mas tudo acertado em acordo entre as partes. Como no faltam pases interessados em receber a competio, a entidade mxima do futebol dita as condies que considera ideais para realizar a festa. Aceita quem quiser. Alm da construo de estdios, das despesas com segurana e dos investimentos em infraestrutura nas cidades-sede, uma conta que j ultrapassa os 80 bilhes de reais, a lista de compromissos assumidos pelo Brasil inclui iseno de impostos e at despesas como o pagamento dos carpetes que vo revestir as reas vips das arenas para receber as autoridades. A pouco mais de oito meses do incio do evento, uma parte desse rol de obrigaes ser discutida judicialmente. 
     Na semana passada, o Ministrio Pblico entrou com seis aes em que pede que a entidade devolva 216 milhes de reais gastos pelas cidades-sede com as chamadas estruturas temporrias montadas para a Copa das Confederaes, realizada em junho como teste para o Mundial de 2014. A fatura envolve os megacomplexos provisrios instalados no entorno das arenas, que incluram tendas para patrocinadores, reas reservadas para convidados e salas para transmisso dos jogos. Por exigncia da Fifa, essas estruturas tiveram de ser custeadas pelos governos locais. Braslia, por exemplo, que sediou uma partida apenas, gastou 49 milhes de reais. As aes foram ajuizadas, em cada cidade que sediou o evento, por promotores que integram um grupo criado pelo MP para fiscalizar as despesas com os jogos. Em outro processo, iniciado em setembro, eles pedem  Justia que impea a Unio, os estados e os municpios de arcar com os custos dessas mesmas estruturas na Copa. Procuradores do MP Federal tambm ajuizaram em Braslia uma ao em que pedem que a Fifa, e no o governo, arque com outra conta, de 160 milhes de reais, relativa a servios necessrios  transmisso dos jogos. 
     Um documento anexado aos processos mostra que na ltima Copa, na frica do Sul, foi a prpria Fifa que pagou as estruturas complementares ao redor dos estdios. Questionada pelo MP, a entidade respondeu que os eventos "no so comparveis entre si". Caso os promotores tenham xito nas aes, o alvio para os cofres pblicos poder chegar a 1,5 bilho de reais. Para a Fifa, no significaria propriamente um prejuzo, mas reduziria o lucro que a entidade ter com a Copa no Brasil, estimado em 10 bilhes de reais. O argumento do MP  o mesmo em todas as aes: gasto pblico, s se deixar algum legado para a populao. "O governo firmou acordos ilcitos ao se comprometer a arcar com despesas que fogem  finalidade pblica", diz o procurador Athayde Costa, coordenador do grupo. Para evitarem que mesmo sendo condenada a Fifa acabe mandando a conta de volta ao governo, os promotores pedem que a Justia anule outro compromisso assumido pelo Brasil, segundo o qual despesas decorrentes de eventuais condenaes judiciais contra a entidade ou algum de seus representantes teriam de ser pagas pelo governo. 


3#5 O TALENTOSO GIM ARGELO 
O senador a quem a confuso parece no dar trgua.

     O senador Gim Argello tem uma histria de vida interessante. Ex-vendedor de carros e ex-corretor de imveis em Braslia, ele entrou para a vida pblica como deputado distrital e, por obra do acaso  a renncia do ento senador Joaquim Roriz , em 2007, chegou ao Congresso. Teve ascenso meterica. Tornou-se lder de seu partido, o PTB,  amigo dileto do presidente da casa, Renan Calheiros, e se gaba de ter timo trnsito com a presidente Dilma Rousseff, de quem se diz muito chegado. Os ternos mal-ajambrados dos tempos de deputado distrital deram lugar a peas de grife. O endereo modesto, distante do centro de Braslia, foi trocado por uma manso na famosa Pennsula dos Ministros, uma das reas mais exclusivas da cidade. Quando perguntado, o ex-vendedor tem na ponta da lngua a explicao para a mudana de vida  diz que ficou rico graas a sua capacidade de acertar nos investimentos, especialmente no ramo imobilirio. O que no mudou em Gim foi a sua capacidade de se meter em histrias pouco edificantes. 
     A ltima envolve a proximidade com integrantes de uma quadrilha acusada pela Polcia Federal de desviar recursos de fundos de penso usando laranjas, empresas-fantasma e dinheiro roubado. Um dos investigados, Luiz Cludio de Souza, policial civil preso e apontado como pea do brao armado da quadrilha, trabalhou para Gim Argello. Tinha at crach do Senado. "Eu conheo, mas faz tempo que no falo com ele", disse o senador. Gim desconversa quando tenta explicar as tarefas que o policial executava no gabinete. Numa recente troca de mensagens interceptada pela polcia. Souza e a secretria do senador aparecem tratando  de assuntos de interesse do parlamentar. Na mesma investigao, a polcia descobriu que uma empresa que fazia parte do esquema de desvios seria agraciada com duas emendas parlamentares do senador, no total de 2,1 milhes de reais. Primeiro detalhe importante: a empresa nunca existiu formalmente. Ao consultar o cadastro das entidades registradas no governo, descobre-se que seu atestado de funcionamento foi assinado pelo prprio Gim. O dinheiro s no foi liberado porque a fraude foi denunciada antes. Gim articula para ser nomeado ministro do Tribunal de Contas da Unio. Quer fiscalizar o uso correto das verbas pblicas. T a!
RODRIGO RANGEL


3#6 MANDATO ALUGADO
Deputado e ex-ministro da Sade de Lula diz em gravao que resolve problemas de empresas farmacuticas dispostas a lhe pagar um mensalo.
GABRIEL MASCARENHAS

     O deputado federal Saraiva Felipe (PMDB-MG) foi ministro da Sade de Lula entre 2005 e 2006. Nenhuma realizao significativa marcou sua passagem pelo cargo. Para Saraiva, no entanto, no foi um tempo perdido. Incorporou contatos valiosos que Fez na burocracia  e os tornou rentveis, segundo ele mesmo diz. Presidente do PMDB mineiro, Saraiva transformou seu quinto mandato num dos mais chocantes balces de negcios de que se tem notcia. Seu foco de atuao  a indstria farmacutica. 
     VEJA teve acesso a uma gravao em que Saraiva, com toda a sem-cerimnia possvel, abre o jogo a um interlocutor que o procurou, supostamente, para que ele ajudasse um laboratrio que queria fornecer medicamentos para o Programa Farmcia Popular: "Tem dois tipos (de trabalho): 'Voc me ajuda e, se der certo, eu te dou no sei o qu; e a outra forma  como eu trabalho para a Interfarma e a Hypermarcas: 'Ns damos uma ajuda mensal e voc, diante das demandas, encaminha aqui e ali". Numa palavra, Saraiva assume sem meias palavras que topa um mensalo. 
     A gravao, feita em Belo Horizonte,  de fevereiro deste ano. Nela, Saraiva promete ao interlocutor, que se apresentou como emissrio de um grande laboratrio, abrir as portas do Ministrio da Sade e da Anvisa. Em relao  agncia reguladora, jacta-se quando fala do diretor-presidente: "O Dirceu Barbano me ajuda muito. Tenho bom acesso a ele". Cita como clientes dois grandes laboratrios (Hypermarcas e Cristlia) e uma entidade de classe, a Associao da Industria Farmacutica de Pesquisa (Interfarma). Ao propagandear seus servios, porm, deixa claro que sua carteira de clientes  ampla: "No sou de empresa nenhuma. Sou despachante". 
     Os 34 minutos de gravao mostram um caso impressionante de desfaatez. Em bom portugus, ele pede propina em troca de favores, que garante conseguir. Procurado, Saraiva reconhece ser sua a voz da gravao. Ainda assim, nega que tenha dito o que est gravado: "Isso no existe. No recebo nada". 
     O que  incontestvel no udio  que o deputado se autoincrimina. H que ter cuidado, porm, em relao aos citados por ele, sejam empresas, sejam autoridades do governo  s uma investigao  poder confirmar o que foi dito. Saraiva pode estar vendendo gato por lebre e usando o nome dos outros para fechar negcios. A Hypermarcas nega "veementemente quaisquer alegaes que objetivem atingir a reputao da companhia". Da mesma forma. Antnio Britto, presidente-executivo da Interfarma, afirma no ter feito "em qualquer tempo, a quem quer que seja, ou por qualquer motivo, pagamento algum para defesa de suas posies junto s autoridades". A Anvisa diz que "atende com ateno e seriedade os pleitos encaminhados pelo Legislativo" e completa: "o mesmo se aplica em relao ao deputado Saraiva Felipe'". O laboratrio Cristlia no se pronunciou. 
 legitimo que um parlamentar trabalhe em favor de um setor  a Interfarma e o Cristlia, alis, so doadores de fundos para a eleio de Saraiva, com 150.000 reais e 80.000 reais, respectivamente. Mais do que isso:  desejvel que segmentos da sociedade, sejam eles sindicatos de trabalhadores, minorias ou setores produtivos, tenham porta-vozes no Congresso defendendo seus interesses. Assim funcionam as democracias. O que  inadmissvel  um deputado mercadejar seu mandato de forma to despudorada. 


3#7  PRECISO MUITA F
A campanha nem comeou e os postulantes ao governo do Rio j travara uma guerra nos bastidores pelos votos dos evanglicos  que tero peso decisivo em 2014.
THIAGO PRADO

     A oito meses da largada oficial da campanha, o palanque para a disputa do governo fluminense j est sendo armado dentro dos templos evanglicos. Todo fim de semana, o senador e pr-candidato do PT Lindbergh Farias, ex-comunista e catlico no praticante, percorre o circuito completo da f: assiste a cultos, abraa fiis e se deixa fotografar com as mos espalmadas em orao. J apareceu em 63 igrejas. Aniversrio de pastor ele no perde um. O rival Luiz Fernando Pezo, vice do governador Srgio Cabral, do PMDB, foi com tanto apetite aos redutos evanglicos que no ms passado chegou a ser condenado pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE) a pagar multa por campanha antecipada. Pezo bateu recorde em participaes na rdio gospel de maior audincia do estado: 29 aparies em quatro meses, ou uma a cada quatro dias. A agenda dos postulantes ao governo do Rio  apenas a face mais visvel da acirrada guerra travada nos bastidores por um quinho desse eleitorado decisivo. Conquist-lo  questo de sobrevivncia poltica em 2014. 
     O tabuleiro eleitoral fluminense tem uma peculiaridade: duas foras polticas do estado so evanglicas, o ex-governador e hoje deputado federal Anthony Garotinho (PR) e o senador Marcelo Crivella (PRB), sobrinho do bispo Edir Macedo e ele prprio uma liderana da Igreja Universal. Trs sondagens s quais VEJA teve acesso, encomendadas por Lindbergh, Garotinho e Pezo, variam um pouco nos nmeros, mas descrevem um cenrio parecido: juntos, o ex-governador e o bispo Crivella oscilam entre 37% e 49% das intenes de voto (Garotinho sai na frente em duas e na terceira eles empatam, seguidos dos demais, embolados na faixa de 5% a 10%). Em outras eleies, Crivella tambm comeou bem, justamente impulsionado pelo rebanho evanglico, at que foi minguando, minguando e nem ao segundo turno chegou: desde 2002, Garotinho no concorre ao Executivo. Como ambos tm alta rejeio, o mesmo pode ocorrer agora, mas eles contam com uma vantagem no campo de batalha: os evanglicos costumam ser fiis  palavra do pastor. Diz o demgrafo Jos Eustquio Diniz Alves, do IBGE: "O Rio  o estado com menos catlicos e um dos que tm maior concentrao de evanglicos, o que os torna imprescindveis". Traduzindo em votos, so cerca de 4 milhes em jogo, um tero do total. 
     Nas ltimas eleies, a maior parte dos evanglicos marchou com Srgio Cabral, s que uma parcela debandou por se sentir alijada do poder. No est fcil arregimentar apoios em meio  onda do "Fora Cabral", mas Pezo tem ao menos um trunfo, o pastor Abner Ferreira, da Assembleia de Deus, com ascendncia sobre 2000 lideranas. Um dos que mais se consideram trados pelo governador  o pastor Silas Malafaia, cujo raio de influncia pode chegar a 1 milho de eleitores. Atualmente, apoia Lindbergh, a quem conduziu ao plpito de sua igreja no ltimo domingo. "Vamos fazer uma orao grtis, 0800, para ele. Quem sabe estou orando pelo futuro governador", dizia o pastor a uma plateia cheia. Ele cedeu ao petista um de seus mais articulados discpulos, Sstenes Cavalcante, to hbil na costura da agenda evanglica que sua fama j chegou at ao prefeito Eduardo Paes. Em 2 de outubro, num almoo que reuniu Malafaia e Pezo, Paes interpelou o pastor, era tom de brincadeira: "Quanto vale o passe de Sstenes?". Velho aliado do prefeito, Malafaia sorriu e desconversou. Recentemente, emissrios de Lindbergh e de Pezo tentaram selar aliana com outra figura-chave, o pastor dino Fonseca (PEN), um dos mais votados deputados estaduais em 2010. O pastor, que tenta a reeleio, foi direto ao ponto: "Quem quiser meu apoio vai ter de bancar minha campanha".  coisa de uns 2 milhes de reais. 
     O ex-governador Garotinho tambm tenta avanar sobre rebanhos antes simpticos a Cabral. Nos ltimos tempos, aproximou-se do pastor Marcos Feliciano (PSC) e acaba de acolher em seu partido Marcos Soares, filho de RR Soares, da Igreja Internacional da Graa. Pelo menos por ora, RR se diz neutro. H um ms, Cabral at lhe fez uma visita para tentar reverter a situao em favor de Pezo. Saiu de mos vazias. Garotinho, que est firme na guerra, brada: "No preciso de intermedirios para me comunicar com os evanglicos". Desde junho, ele organiza shows de artistas gospel em todo o estado. Arrastou mais de 1000 pessoas  Baixada Fluminense no ltimo dia 10. Ao lado da filha, Clarissa, candidata  Cmara dos Deputados, Garotinho cantou, danou, rezou, contou casos e sorteou Bblias. S podia participar do sorteio quem deixasse nome, endereo, telefone e e-mail na ficha. Realmente, isso  que  comunicao direta com o eleitor. Ops, fiel.


3#8 TRILHA DE DINHEIRO
Documentos da Polcia Federal revelam enriquecimento inexplicvel de suspeitos de envolvimento no esquema de corrupo no governo de So Paulo.
ALANA RIZZO

     Nunca saiu da fase genrica a acusao de formao de cartel de companhias estrangeiras fornecedoras de equipamentos para governos de So Paulo comandados desde 1995 pelo PSDB. Sabe-se que houve combinao de preos entre as empresas de modo a encarecer a conta para os cofres do estado. Tanto assim que, na qualidade de parte prejudicada, o Estado de So Paulo analisa processar uma das empresas, a Siemens, cuja filial brasileira se autoincriminou por presso da matriz, na Alemanha. Mas, at a semana passada, faltava ao caso um elemento crucial: para que a cartelizao funcionasse, muito provavelmente teria sido necessria a colaborao de altos funcionrios do governo. O corolrio disso  que, tendo havido colaborao, os suspeitos deveriam ter tido algum benefcio financeiro  e isso seria relativamente simples de comprovar. Uma investigao da Polcia Federal sobre a atuao da multinacional francesa Alstom, uma das parceiras da Siemens no arranjo, descobriu evidncias, mesmo que indiretas, do pagamento de propina a servidores, isso coloca o caso em um estgio superior ao que estava antes. 
     Os relatrios de inteligncia e laudos da evoluo patrimonial de funcionrios do governo paulista aos quais VEJA teve acesso revelaram que ao menos quinze investigados, que ocuparam cargos nas reas de transporte e energia, tiveram movimentaes financeiras incompatveis com seus rendimentos. Outros cinco, que no eram servidores, tambm apresentaram resultados considerados suspeitos pela Polcia Federal. Onze deles j foram indiciados. Os peritos que investigam as suspeitas de pagamento de propina pela Alstom analisaram mais de 352.000 lanamentos de instituies financeiras entre 1998 e 2009. O objetivo era rastrear a trilha do dinheiro. Isso foi feito com algum sucesso  mas no com a cabal comprovao de que a propina saiu dos cofres da multinacional francesa para os bolsos ou contas bancrias dos suspeitos. Na semana passada, foi revelado que Joo Roberto Zaniboni, ex-diretor de operaes da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), recebeu 836.000 dlares em uma conta em um banco suo. Zaniboni esteve em todos os governos tucanos de So Paulo, de Mrio Covas a Jos Serra, passando por Alckmin. 
     A pedido do Ministrio Pblico, a PF procura ainda o elo entre as duas pontas de eventos paralelos. Se e quando vier, o mistrio poder ser dado como resolvido. A PF descobriu que entre 2004 e 2007 Jorge Fagali Neto, ex-secretrio de Transportes Metropolitanos e irmo de um ex-presidente do Metr, teve aumento patrimonial incompatvel com seus ganhos. Fagali Neto foi indiciado sob a acusao de corrupo passiva, evaso de divisas e lavagem de dinheiro. O ex-secretrio nega as acusaes e refuta a qualidade da anlise e a concluso da investigao da PF. Os documentos mostram movimentaes financeiras suspeitas de Eduardo Jos Bernini, presidente da Eletropaulo entre 1996 e 1998, e de Henrique Fingermann, ex-presidente da Empresa Paulista de Transmisso de Energia Eltrica. A PF registrou o aumento de 2,4 milhes de reais para 30,5 milhes de reais no saldo mdio da conta bancria de Bernini de 2007 para 2008, perodo em que atuou como conselheiro da AES Eletropaulo e da AES Tiet. Eles poderiam ter tido outras fontes de renda legais? Teoricamente, sim. Mas os policiais afirmam que no perodo investigado nenhum dos suspeitos declarou  Receita Federal qualquer ganho extra. Bernini e Fingermann sempre negaram o envolvimento no esquema de pagamento de propina pelo grupo Alstom a agentes pblicos. 
     A testemunha mais valiosa do caso , sem dvida, o lobista Romeu Pinto Jnior, que j prestou um depoimento  polcia. Em 2007, a PF descobriu que a soma que passou por sua conta foi 400% maior que os seus rendimentos. Pinto Jnior contou que foi procurador de uma offshore nas Ilhas Virgens Britnicas que pertencia a Philippe Jaffre, ento diretor financeiro da Alstom na Franca. O lobista revelou que, por orientao de Jaffre, colocava altas quantias em envelopes e os fazia chegar a determinadas pessoas. Que pessoas? Ele no se lembra. Se Pinto Jnior recobrar a memria e contar quem foram os destinatrios dos envelopes enviados pelo generoso monsieur Jaffre, o enigma acabar e comear um problemo para os tucanos de So Paulo. 
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4# INTERNACIONAL 

     4#1 UMA PAUSA NA CRISE
     4#2 O IR GANHOU MAIS TEMPO
     4#3 77 MORTES NO CURRCULO

4#1 UMA PAUSA NA CRISE
A poucas horas de ficar sem dinheiro, o governo americano conseguiu a aprovao do Congresso para se financiar. Desde o incio do impasse, o calote era improvvel.
TATIANA GIANINI

     Os Estados Unidos nunca deixaram de pagar os juros de sua dvida. Os ttulos do Tesouro americano so considerados livres de risco justamente porque os credores sabem que recebero seu dinheiro de volta. Um simples atraso no pagamento desses juros poderia derrubar os mercados. Se isso chegasse a ocorrer, uma hiptese que se aventou na semana passada quando quase expirou o prazo para o Congresso autorizar o governo a se endividar um pouco mais, acreditava-se que um calote indito do pas poderia ter levado o mundo  bancarrota. Alguns bancos iriam  falncia, as agncias de classificao de risco rebaixariam a nota da dvida pblica dos Estados Unidos, o que levaria mais dinheiro de investidores para fora do pas, e o sistema financeiro global poderia perder seu maior porto seguro, o Tesouro americano, sem nenhum substituto  vista. Os mercados demonstraram alvio e o apocalipse financeiro foi descartado na quarta-feira passada, quando os parlamentares americanos chegaram a um acordo para reabrir o governo, que passou dezesseis dias com suas atividades parcialmente paralisadas por falta de dinheiro, e elevaram o teto da dvida federal. A lei foi sancionada pelo presidente Barack Obama em seguida, na madrugada de quinta-feira. O alvio, porm,  temporrio. O governo recuperou a capacidade de financiar suas atividades s at 15 de janeiro, enquanto o Congresso discute a aprovao de um Oramento anual definitivo. J o novo teto de endividamento vale at 7 de fevereiro. Ou seja, a queda de brao entre a Cmara dos Deputados, com maioria republicana, e o Senado, controlado pelos democratas, vai continuar. 
     Apesar de os parlamentares do Partido Republicano terem levado o impasse no Oramento e no teto da dvida at o limite, como forma de pressionar Obama a mudar ou adiar sua impopular reforma do sistema de sade, a probabilidade de deixarem o pas despencar no abismo era reduzida, se no inexistente. Os republicanos, liderados pelo presidente da Cmara, John Boehner, sabiam desde o incio que o calote da dvida custaria caro. Eles ento puseram a batalha poltica de lado para manter a reputao de bom pagador do pas, algo que ao longo da histria beneficiou tanto governos democratas quanto republicanos, que se alternam no poder. Ainda que, racionalmente, qualquer analista de mercado um pouco mais experiente saiba que um calote americano  improvvel, no faltaram, na semana passada, propostas para evitar crises futuras causadas pela insegurana em relao  aprovao do teto da dvida americana. Houve quem pedisse a extino pura e simples do dispositivo que obriga o Congresso a autorizar emprstimos para gastos j aprovados pelos prprios parlamentares. Na Inglaterra, na Alemanha e no Brasil, entre outros pases, no existe essa obrigao. Os defensores da responsabilidade fiscal propuseram que o Estado deveria ser proibido de acumular mais dvidas. Para equilibrar o Oramento, porm, o governo teria de cortar gastos e aumentar impostos, medidas que, a curto prazo, provocariam um impacto negativo na economia. Por fim, chegou-se a sugerir que Obama ignorasse o teto da dvida e emitisse novos ttulos. Nesse caso, os deputados poderiam retaliar abrindo um processo de impeachment contra ele, por desrespeitara lei. 
     Mesmo com tantas possibilidades para evitar o risco de um calote, o pnico se instaurou porque no h no mundo outro lugar seguro para investir ou, no caso dos pases, para lastrear as reservas internacionais. Nem os mercados de ttulos da dvida pblica da Alemanha e da Inglaterra somados conseguem ter o volume do que  negociado pelos Estados Unidos. "Se progredisse a ideia de criar ttulos europeus, esse mercado poderia rivalizar com o americano, mas seriam necessrios vrios anos para os investidores desenvolverem o mesmo tipo de confiana que tm no Tesouro americano", diz o economista dinamarqus Morten Olsen, da escola de negcios espanhola Iese. Os ttulos americanos so to slidos que nem alguns dias de calote seriam suficientes para derrubar a economia mundial. "Um default de trs anos, sim, seria fatal", diz o economista americano Gary Burtless, do Brookings Institution. Uma catstrofe assim est longe de acontecer. 


4#2 O IR GANHOU MAIS TEMPO
As potncias mundiais retornam  mesa de negociaes para barrar os planos do Ir de obter a bomba nuclear. Os diplomatas esto otimistas, mas as promessas so vagas.

     Um raro otimismo permeou os dois dias de negociaes sobre o programa nuclear iraniano, na semana passada, em Genebra. A cpula reuniu representantes dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurana da ONU (Estados Unidos, Rssia, Franca, China e Inglaterra) e da Alemanha, de um lado, e os iranianos, do outro. Os sinais de entendimento foram discretos, mas, segundo alguns negociadores, surpreendentes. As delegaes conversaram em ingls, sem tradutores, e houve encontros entre americanos e iranianos  margem da cpula. O chanceler persa, Mohamad Javad Zarif, e a chefe da diplomacia europeia, Catherine Ashton, informaram conjuntamente sobre as "substanciais" conversas e anunciaram que as negociaes vo continuar no ms que vem. "Reunies sem dramas ou hostilidades no aconteciam havia uma dcada", diz Michael Adler, especialista em Ir do Wilson Center que acompanhou os encontros em Genebra. 
     Em linhas gerais e vagas, o Ir ofereceu uma eventual limitao de seu programa nuclear e a realizao de inspees em troca do direito de enriquecer uma quantidade preestabelecida de urnio e do fim das sanes internacionais ao pas. At a, tudo bem. O problema est no que no foi discutido. Que sanes sero eliminadas e a que velocidade? Que garantias sero dadas  comunidade internacional de que Teer de fato abriu mo de obter armas nucleares? Nada disso foi esclarecido. As autoridades iranianas tambm deram sinais contraditrios sobre sua real inteno de colaborar. O vice-chanceler persa, Abbas Araqchi. insinuou que o pas poderia aceitar visitas a qualquer instalao, enquanto Zarif sugeriu que isso iria contra as leis do pas. "No quero estragar a festa, mas ainda no h um pacto nuclear ou reduo das divergncias. Tudo ainda pode dar errado", acrescenta Adler. Essa foi a primeira negociao com o Ocidente desde a posse de Hassan Rohani como presidente do Ir, em agosto, sob a promessa de eliminar as pesadas sanes econmicas impostas pelo Ocidente desde 2006 em represlia aos planos atmicos dos aiatols. Com a aparente boa vontade iraniana, Rohani tem conseguido passar a imagem de moderado e foi o primeiro governante do pas a conversar direto com um presidente americano em 34 anos, o que aconteceu no ms passado, por telefone. Com isso, j obteve uma vitria: ganhou tempo, e pode querer us-lo inclusive para acelerar a fabricao da bomba. 
NATHALIA WATKINS


4#3 77 MORTES NO CURRCULO
Breivik, o matador de Oslo, foi aceito como aluno da Faculdade de Cincias Sociais. Mas, em nome da democracia, talvez fosse melhor que ele, em vez de estudante, fosse estudado.

     O noruegus Anders Behring Breivik  um monstro de dicionrio: cruel, desumano, muito ruim. Em 22 de julho de 2011, depois de ter divulgado pela internet um manifesto racista e xenfobo, ele explodiu oito pessoas no centro de Oslo e, em seguida, dirigiu-se para a ilha de Utoya, nos arredores da capital do pas, onde assassinou a tiros outras 69, a maioria delas adolescentes pertencentes a um partido de esquerda. Condenado a 21 anos de priso, a pena mxima na Noruega, ele passar o resto dos seus anos enjaulado somente se a Justia consider-lo inapto definitivamente para a vida em sociedade. Algum que matou 77 pessoas no  recupervel, convenha-se, mas a Noruega  um daqueles pases em que, por excesso de civilizao, com o perdo do paradoxo, o princpio de realidade democrtica pode dar lugar ao princpio de ingenuidade. Ou no  ingnuo aceitar Breivik como aluno do Departamento de Cincia Poltica da Faculdade de Cincias Sociais de Oslo? 
     Para justificar a admisso do assassino nos cursos de poltica internacional, teoria poltica e poltica administrativa pblica, o reitor da Universidade de Oslo, Ole Petter Ottersen, escreveu no jornal ingls The Guardian que a maneira como foi conduzido o julgamento de Breivik, permitindo que ele fosse ouvido no tribunal  uma perorao de dio, sem sombra de remorso, esclarea-se , havia sido um bom teste para a democracia norueguesa. E que o acesso  educao era outro passo nesse sentido. "O fato de a sua candidatura ter sido tratada de acordo com as regras existentes demonstra que os nossos valores so fundamentalmente diferentes dos dele", afirmou Ottersen. E um argumento semelhante a um dos usados pelo jurista Robert Badinter, para defender a abolio da pena de morte na Frana, em 1981. ''Utilizar contra os terroristas a pena de morte , para uma democracia, fazer seus os valores deles", disse Badinter. 
     H uma diferena, no entanto, entre as duas situaes. Se no caberia a um Estado democrtico aplicar a pena capital, por ser ela a expresso de uma vingana pessoal de carter primitivo (no caso, a dos familiares de quem foi assassinado) ou de uma viso deformada do mundo (a de terroristas), tambm no lhe seria prprio esquecer que a Justia  igualmente uma forma de satisfao s pessoas. Ou seja, o exerccio mensurado da paixo dos ultrajados. Aspecto desprezado em relao aos parentes dos 77 cidados executados. 
     Se Breivik se dispuser mesmo a cursar as disciplinas para as quais foi aprovado, ter de faz-lo na priso  onde, reclama, faltam manteiga suficiente para as suas torradas e creme hidratante. Diagnosticado como narcisista doentio, talvez ele devesse se tornar objeto de estudo na Universidade de Oslo, e no um dos seus estudantes. A democracia norueguesa no perderia nada com isso, a no ser certa candura indevida. 
MRIO SABINO, DE PARIS
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5# ECONOMIA 

     5#1 O MERCADO ... RACIONAL OU IRRACIONAL?
     5#2 CERVEJA NO, CEBOLINHA!

5#1 O MERCADO ... RACIONAL OU IRRACIONAL? 
O Nobel de Economia foi para duas correntes contrrias, mas ambas essenciais  compreenso das finanas modernas.
GIULIANO GUANDALINI

     Quanto custar o dlar no fim do ano? Quanto valer a ao da OGX no prximo ms? Uma maneira de obter essas respostas  consultar uma cartomante. Outra  usar o papagaio de um realejo para tirar um valor aleatrio, na sorte. Uma opo mais inteligente, quem sabe,  pedir a opinio de um analista financeiro dono de um histrico de previses razoavelmente certeiras. O mais eficiente, entretanto,  simplesmente observar o que mostram as cotaes no mercado futuro. Quando um consultor emite sua projeo sobre o valor de uma moeda ou de uma ao, tem-se a opinio de uma nica pessoa. Nas cotaes travadas no mercado, os valores refletem a opinio mdia de milhares de pessoas  empresrios, especuladores, banqueiros, exportadores, investidores  que emitem o seu parecer incessantemente. 
     As cotaes de mercado no so necessariamente corretas, ou justas. Elas exprimem to somente a melhor avaliao possvel diante das informaes existentes naquele momento. Se aparece alguma notcia sobre a substituio de um executivo da OGX, a empresa de petrleo de Eike Batista, rapidamente o mercado reage, elevando ou derrubando o preo das aes. Se o governo anuncia uma medida de interveno no cmbio, a cotao do dlar ajusta-se instantaneamente, para cima ou para baixo. Os preos so assim determinados pela deciso racional, a partir das informaes disponveis. Esse  o conceito bsico por trs da hiptese dos mercados eficientes, desenvolvida, a partir dos anos 60, pelo economista americano Eugene Fama, da Universidade de Chicago, um dos trs agraciados com o Nobel de Economia deste ano. 
     Uma das concluses do trabalho terico e emprico de Fama  a imprevisibilidade dos preos das aes no curto prazo. As cotaes oscilam conforme novas informaes vo sendo incorporadas (ou precificadas), em uma trajetria aleatria (random walk), formada por sucessivos movimentos em diversas direes, de maneira similar  de uma molcula viajando em um gs. Se os mercados so eficientes, refletindo decises de agentes racionais, e as trajetrias futuras so impossveis de prever com certeza absoluta,  muito difcil que um investidor consiga obter retornos superiores ao da mdia do mercado, ensinou Fama. 
     Os conceitos de mercados eficientes e expectativas racionais so as pedras angulares das finanas modernas. Uma corruptela dessas ideias, entretanto,  acreditar piamente que os mercados esto sempre certos. No esto, e o crash de 2008 fez ruir a confiana cega na eficincia plena dos mercados e abalou toda a indstria financeira construda ao redor desse princpio. Pode haver momentos de exuberncia  ou tambm de pnico  irracional, ensinou o economista americano Robert Shiller, da Universidade Yale, outro dos premiados com o Nobel deste ano. Estudos de Shiller revelaram que as aes podem, eventualmente, ser negociadas a um valor em muito superior ao que seria correto diante da perspectiva de lucros esperados. Ainda que a racionalidade fria do homem econmico explique com certa exatido os movimentos de longo prazo, as oscilaes de curto prazo so sujeitas aos humores e temores do homem real. Shiller foi um dos primeiros a alertar para a valorizao excessiva nas aes de empresas de tecnologia nos anos 90. Mais recentemente, alertou sobre o aumento exagerado no preo dos imveis, anos antes do crash de 2008. Nas duas vezes foi certeiro ao antecipar que o mercado, ainda que movido pela racionalidade, vivia dias de irracionalidade. 
     O valor de ativos financeiros nem sempre segue a lei bsica da oferta e da procura. Existem situaes em que o aumento nos preos de uma ao , ou de imveis, por exemplo, pode desencadear uma onda de euforia, fazendo mais e mais pessoas investir sob a expectativa de uma valorizao ininterrupta. (Se o meu vizinho est ficando rico investindo na bolsa, por que no eu?) Absorvendo lies da psicologia, a economia comportamental alertou para a impossibilidade de incorporar plenamente as atitudes humanas de euforia ou pnico, por exemplo, s equaes matemticas usadas pelos economistas  por mais avanados e sofisticados que sejam esses modelos economtricos, rea de estudo do americano Lars Peter Hansen, tambm de Chicago e o terceiro ganhador do Nobel de 2013. Hansen, que tem trabalhos em parceira com o brasileiro Jos Alexandre Scheinkman,  particularmente reconhecido por suas contribuies para o entendimento de como se relacionam as finanas e o setor real da economia. 
     Desde 1974, quando o austraco defensor do capitalismo liberal Friedrich Hayek dividiu o Nobel com o socialista sueco Gunnar Myrdal, a distino no era concedida, no mesmo ano, a economistas com pensamentos to opostos. Dar o Nobel a Fama e a Shiller, no mesmo ano,  como premiar conjuntamente Ptolomeu por afirmar que a Terra  o centro do universo e Coprnico por ter provado que no, comparou o economista escocs John Kay, colunista do Financial Times. Mas, como diz Kay, tanto o trabalho de Fama como o de Shiller mostram que os mercados funcionam com boa dose de previsibilidade no longo prazo. O Nobel, selecionado pelo comit do Banco Central da Sucia, ao premiar trabalhos acadmicos aparentemente antagnicos, lembra que ambos contriburam substancialmente para ampliar a compreenso dos mercados.


5#2 CERVEJA NO, CEBOLINHA!
A indstria da bebida investe para afastar menores do lcool.
     
     Um quarto dos pais brasileiros nunca conversou com os filhos sobre o consumo de bebidas alcolicas com responsabilidade, segundo um levantamento da empresa de pesquisas Ipsos em onze pases. Outros estudos expem um aspecto ainda mais grave: os pais costumam ser responsveis por incentivar os filhos a consumir lcool antes da maioridade. Um estudo da Secretaria Nacional Antidrogas concluiu que quase metade dos adolescentes experimentou lcool pela primeira vez em casa, sob o olhar dos familiares. 
     A indstria da bebida, muitas vezes acusada de incentivar o consumo precoce por meio de suas peas publicitrias, investe agora em campanhas educativas para se distanciar das crticas e contribuir para o consumo consciente. Um esforo nesse sentido  a campanha que ser lanada nesta semana pela Ambev. Balizada de "Papo em famlia", a iniciativa contou com a colaborao de especialistas ligados ao assunto, com o intuito de educar os pais e as crianas, alm de facilitar a comunicao entre eles. Foi feita uma parceria com a Maurcio de Sousa Produes, que produziu filmes, websries e tiras. So retratadas com os personagens da Turma da Mnica cenas do cotidiano, como o Cebolinha pedindo para tomar um gole no copo de cerveja e ouvindo do seu pai que bebida no  coisa para criana. O contedo ser distribudo gratuitamente a entidades, escolas ou qualquer pessoa que deseje us-lo. 
     A Ambev j havia se unido em 2011 ao Grupo Po de Acar em uma ao voltada a supermercados e bares. A rede varejista passou a contar em suas lojas com um sistema operacional que bloqueia a venda de bebidas alcolicas sempre que elas passam pelo aparelho de leitura do cdigo de barras. O operador de caixa s consegue liberar a venda inserindo a data de nascimento do cliente. O gigante ingls Diageo, dono de marcas como Smirnoff e Johnnie Walker, mantm desde 2007 uma parceria semelhante com o Walmart, na campanha "Menor com lcool no  legal". Alm disso, o Conselho Nacional de Autorregulamentao Publicitria (Conar) vem tomando iniciativas para disciplinar as propagandas de bebidas alcolicas. 
ANA LUIZA DALTRO
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6# GERAL 

     6#1 GENTE
     6#2 RELIGIO  DAI A JESUS O QUE  DE JESUS
     6#3 RELIGIO  O AVESSO DE FRANCISCO
     6#4 ESPECIAL  PGINA INFELIZ, DA NOSSA HISTRIA
     6#5 ESPECIAL  DETALHES NADA PEQUENOS
     6#6 TECNOLOGIA  UMA USINA DE TALENTOS
     6#7 NEGCIOS  NA ROTA DO DINHEIRO NOVO
     6#8 SOCIEDADE  FUNK MAIS PREPARADO
     6#9 GASTRONOMIA  NA FOGUEIRA DAS VAIDADES

6#1 GENTE
JULIANA LINHARES. Com Marlia Leoni e Thas Botelho

 ESPERA DO PRXIMO CAPTULO
Os atores CAU REYMOND e GRAZI MASSAFERA convivem com boatos de separao desde o comeo do ano. Nesse perodo, apareceram apenas cinco vezes juntos. Na semana passada, surgiu na histria o nome da atriz Isis Valverde e, concomitantemente, desapareceram do Instagram de Grazi todas as fotos dela junto com ele. Isis, que filma com o ator a minissrie Amores Roubados, rompeu h poucas semanas o namoro de dois anos com o msico Tom Rezende. "Terminamos por outros motivos", diz Rezende. "Se ela est com Cau, isso j no  mais problema meu." Pelo Facebook, Cau ironizou: "Acabaram de nos separar mais uma vez". O casal tem uma imagem muito positiva e um contrato publicitrio anual de 1,8 milho de reais. 

UM CASO DE PAIXO ANIMAL 
Ela  uma atriz linda e jovem, seu marido  um ator lindo e jovem e,  noite, na hora de ir para a cama, o que acontece? "Nossos nove cachorros tm acesso a ela", brinca GIOVANNA EWBANK, 27, a corista Cristina de Jia Rara. Por causa da paixo animal, ela desce dos altssimos saltos e se dedica a uma entidade que recolhe, castra e abriga bichos encontrados na rua. No falta tempo para o marido, Bruno Gagliasso, porque esto trabalhando na mesma novela. " uma delcia acordar, almoar, jantar e ir para casa juntos", diz. Para o papel, fez aula de salsa, forr e pol dance. "Mas sou desengonada, nem as cinco horas de aulas por dia davam jeito", conta. Neta de escoceses, Giovanna levou os cabelos aloirados ao limite da descolorao. "Andei de leno duas semanas, para esconder." 

O MODELO PERFEITO
J que a futura rainha da Inglaterra, KATE, e a eterna rainha dos reality shows, KIM KARDASHIAN, foram as grvidas mais famosas do mundo,  justo que a recuperao ps-maternidade seja objeto de curiosidade. Desde que perdeu 11 quilos, tingiu o cabelo de loiro e reapareceu em decotes abissais, sem indcios de amamentao, Kim vem causando comoo. Mas nada se compara  sua selfie  a foto de si mesma  de maio branco, mostrando seu ngulo mais conhecido. "Vou j para casa", tuitou o pai da criana, o cantor Kanye West.  ele quem est reprogramando visualmente a mulher, aspirando a um visual mais sofisticado. J disse at que tem como modelo a outra mame famosa, Kate, que deixou entrever num jogo beneficente de vlei que tambm voltou ao que era, com zero de barriga. 

TRS TONS ACIMA DAS BEST-SELLERS
Premiadas, mas ainda pouco conhecidas, trs escritoras vindas de pases fora do circuito dos autores de alcance global despontam no cenrio literrio. A mais jovem  Eleanor Catton, nascida no Canad e criada na Nova Zelndia, que na semana passada levou o Booker Prize. S no vale dizer que elas fazem "literatura feminina".

Autora: ELEANOR CATTON, neozelandesa, 28 anos
Mrito: ganhou o Man Booker Prize, o prmio mais importante da Gr-Bretanha para autores de lngua inglesa
Resumo: The Luminaries, com 832 pginas,  um romance de estrutura complexa ambientado num garimpo do sculo XIX

Autora: KATIA PETROVSKAYA, ucraniana baseada na Alemanha, 43 anos
Mrito: ganhou em julho o prmio alemo Ingeborg Bachmann
Resumo: Nos contos de Vielleicht Esther, um dos temas tratados  o infame massacre de 33.000 judeus e civis ucranianos cometido pelos nazistas em Babi Yar

Autora: SOFI OKSANEN, finlandesa, 36 anos
Mrito: fora os dreadlocks, ganhou um prmio da Academia Sueca 
Resumo: Em As Vacas de Stalin, conta a histria de uma filha anorxica, sua me e a av, que vivem entre a Estnia e a Finlndia, como a prpria autora.


6#2 RELIGIO  DAI A JESUS O QUE  DE JESUS
Telogo americano defende a tese (frgil mas ruidosa) de que a figura de Cristo foi inventada pelos romanos de modo a subjugar os judeus no sculo I.
ADRIANA DIAS LOPES

     Jesus foi casado? Jesus teve filhos? Jesus era mulher? Ao longo de 2000 anos de cristianismo, brotaram dezenas de teorias para recontar a vida do Jesus histrico. O telogo americano Joseph Atwill bateu todos os recordes com uma tese bombstica: para ele, Cristo no existiu. Teria sido inventado pela aristocracia romana do sculo I para subjugar os judeus durante a guerra judaico-romana, entre os anos 66 e 73. No sbado 19, Atwill anunciaria sua tese em um ruidoso simpsio em Londres. 
     Atwill diz ter colhido indcios da inveno de Jesus ao ler A Guerra dos Judeus, clssico do historiador Flvio Josefo (37-100). integrante da nobreza sacerdotal judaica que, mais tarde, se aliou aos romanos. Os sete tomos da obra de Flvio Josefo so o nico relato feito ao vivo da batalha que massacrou  o povo hebreu. A seguir, VEJA lista os principais pontos do raciocnio de Atwill e os argumentos que o relegam ao universo da fantasia. 

O Novo Testamento foi criado por intelectuais do Imprio Romano 
Os quatro Evangelhos que compem o Novo Testamento so riqussimos em contedo, cada um com caractersticas e estilos muito peculiares. O mais antigo, de autoria do apstolo Marcos, descreve a vida de Jesus por meio de fatos muito objetivos. O de Joo, o mais recente, trabalhado por volta do ano 100, faz o mesmo, mas por intermdio de profundas anlises teolgicas.  muito improvvel, portanto, que os livros pudessem ter sido escritos em uma sentada, a mando do imperador. 

A figura, de Jesus foi criada para acalmar os judeus que se rebelavam contra o domnio romano 
Os romanos perseguiram o cristianismo com massacres e confiscos de bens at o sculo IV, quando o imperador Constantino concedeu a liberdade ao culto cristo. No faz sentido, portanto, os romanos inventarem uma religio e reprimirem-na ao longo dos 300 anos seguintes. 

Jesus foi uma inveno para encorajar os judeus a pagar os impostos a Roma 
O Novo Testamento atribui a Jesus a indelvel frase "Dai a Csar o que  de Csar, e a Deus o que  de Deus". Atwill interpreta tal passagem como uma estratgia simplria de submisso dos judeus  "Dem dinheiro ao imperador". Na Bblia, porm, o contexto  outro. Jesus fora abordado por seguidores do imperador que pediam a ele sua opinio sobre o pagamento de impostos. Cristo respondeu: "Mostrai-me a moeda do tributo". E eles lhe apresentaram uma moeda com o nome e a imagem de Csar. Jesus, ento, citou a frase famosa: "Dai a Csar o que  de Csar...". Tal resposta embute delicada ironia. "Por ter o nome e a imagem de Csar, o dinheiro pertencia ao prprio Csar, mas o mais decisivo, a devoo e a obedincia, pertencia a Deus", diz Antonio Luiz Catelan Ferreira, professor de teologia da PUC do Paran. 
     H uma razo teolgica para tanto impacto em torno das especulaes com o Jesus histrico. O cristianismo  a nica religio monotesta a ter como seu criador o prprio Deus. Para os cristos, Jesus  Deus. Deus veio  Terra para fundar o cristianismo. Maom e o patriarca Abrao, criadores, respectivamente, do islamismo e do judasmo, so profetas enviados por Deus. Mexer na imagem de Jesus  mexer na imagem de Deus. Um prato cheio para controvrsias.


6#3 RELIGIO  O AVESSO DE FRANCISCO
Um bispo alemo que vive cercado de luxo foi convocado a se explicar ao Vaticano. 

     O bispo Franz-Peter Tebartz-van Elst, de 53 anos, da aprazvel diocese de Limburgo, foi alcunhado na Alemanha com a pecha de "bispo do luxo" depois de suas estripulias monetrias terem sido reveladas pela imprensa. Perdulrio, ele gastou 31 milhes de euros (o equivalente a 92 milhes de reais) na construo de um imenso complexo residencial que inclui salas de conferncia, capela e um museu. Apenas nos aposentos privados, ele usou 3 milhes de euros dos fieis. Na banheira, outros 15.000 euros. Na semana passada, a vida nababesca de Tebartz-van Elst foi parar na capa da revista Der Spiegel. 
     O Vaticano j havia reagido. Tebartz-van Elst recebera a visita de um representante da Congregao dos Bispos, instituio presidida pelo cardeal canadense Marc Ouellet, um dos clrigos mais prximos do papa Francisco. A visita teve tom punitivo. O gastador teria se comprometido a mudar drasticamente seus hbitos mundanos. O bispo, no entanto, continuou ostentando riqueza. Ficou feio, muito feio, e o prprio Francisco entrou no caso. 
     Na manh da quinta-feira passada, o pontfice se reuniu no Vaticano com o arcebispo Robert Zollitsch, responsvel pela entidade que representa em Roma os bispos alemes. "Todos na igreja querem uma soluo clara para restabelecer a calma  diocese de Limburgo", disse Zollitsch, logo depois do encontro. Ele ficou com a   incumbncia de investigar a fundo o cotidiano de Tebartz-van Elst e entregar um relatrio minucioso o mais rpido possvel. Francisco, o papa simples, que faz de sua postura um manifesto de novos tempos para a Igreja Catlica, vive como prega, e talvez dessa humildade tenha nascido a imediata identificao com seu rebanho. O papa usa carro popular e mora em quarto simples no Vaticano. O estilo de Tebartz-van Elst definitivamente no combina com a era de Francisco. 


6#4 ESPECIAL  PGINA INFELIZ, DA NOSSA HISTRIA
Gilberto Gil, Roberto Carlos, Chico Buarque e Caetano Veloso dizem que querem resguardar a privacidade  mas as propostas do grupo resumem-se a apenas uma infame palavra: censura.
JERNIMO TEIXEIRA

     So apenas trs os tipos de biografias. Existem as autorizadas e as no autorizadas, ambas, a despeito de sua qualidade, teis  sociedade. O terceiro tipo  um tiro no p das democracias,  a biografia censurada. Pois  justamente esse o tipo de biografia que nossos dolos querem ver prevalecer no Brasil. Nossos dolos no so mais os mesmos. Eles passaram a semana inteira tentando, em vo, explicar que acham sensato o biografado censurar sua biografia, mas que isso no significa a morte da liberdade, justamente a causa  que os tornou clebres, admirados, amados e, claro, biografveis! Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil enfiaram-se em um labirinto retrico de dar d. A cada nova justificativa, desciam mais um degrau do autoritarismo. A cada falsidade desmascarada, desciam um ponto na escala da admirao que conquistaram no corao dos brasileiros. 
     Chico Buarque, logo ele, mentiu. Ao defender, em um artigo no jornal O Globo, o direito de artistas vetarem biografias, o compositor de Apesar de Voc afirmou que nunca dera entrevista a Paulo Csar de Arajo, autor da biografia  censurada  Roberto Carlos em Detalhes. Como Chico vai listado no livro entre as mais de 150 personalidades que deram depoimentos sobre Roberto Carlos, s haveria uma concluso possvel: o autor inventou uma entrevista. O  desmentido foi imediato e definitivo. Arajo divulgou foto e vdeo da entrevista com Chico, realizada no Rio em 1992. Chico alegou falha de memria. O princpio invocado pelos artistas que, como Chico, vm defendendo a censura  eles refutam a palavra, mas no existe outra  de biografias  o direito  privacidade. No entanto, eis aqui um vexatrio fato pblico que nem o mais encomistico bigrafo de Chico Buarque poder ignorar no futuro: o compositor tentou denegrir a reputao de um profissional srio. Mesmo que Arajo fosse um falsificador de entrevistas, a m conduta de um bigrafo no justificaria a submisso de todo um gnero literrio e histrico ao cabresto de artistas, celebridades e homens pblicos que desejam controlar o que se diz a seu respeito. Est em jogo, neste debate, um princpio inegocivel da democracia: a liberdade de expresso. Embora seja vital para todo e qualquer cidado, a liberdade de expresso deveria ser especialmente cara a quem tem na arte o seu ofcio, e talvez ainda mais aos msicos da gerao que, nos anos 60 e 70, sofreu com a censura do regime militar. No entanto, foram estes que se mobilizaram para solapar esse fundamento do Estado de direito. No grupo ridiculamente chamado Procure Saber, capitaneado pela hbil empresria Paula Lavigne, esto Chico, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Djavan, Milton Nascimento, Erasmo Carlos e Roberto Carlos. De incio, o grupo organizou-se para pedir mudanas na legislao sobre direitos autorais. Mas, no encontro que a trupe teve com a presidente para falar desse tema, Roberto Carlos aproveitou para adiantar sua preocupao maior: a manuteno dos dispositivos do Cdigo Civil que permitem o veto a biografias no autorizadas. Esses pontos da lei esto sendo contestados, no Supremo Tribunal Federal, por uma Ao Direta de Inconstitucionalidade (ADI) movida pela Associao Nacional de Editores de Livros. 
     Paula Lavigne e outros membros do Procure Saber tm se apresentado como uma humilde guilda de artistas em luta contra a iniciativa agressiva da poderosa indstria livreira. A rigor, porm, so os editores que tentam se defender de uma srie de ameaas judiciais a seu trabalho. Embora tenha havido casos anteriores de censura  notadamente, no processo movido, em 1995, pelas filhas do jogador Garrincha contra a biografia Estrela Solitria, de Ruy Castro , o episdio zero se deu em 2007, quando Roberto Carlos conseguiu que fosse sustada a circulao da biografia escrita por Arajo. Censurado por Roberto e difamado por Chico, Arajo define essa situao com ironia: "Agora me tornei inimigo tanto da msica mais popular quanto da MPB intelectual". 
     A ADI dos editores contesta os artigos 20 e 21 do Cdigo Civil. O artigo 21 estabelece que a privacidade  inviolvel". O 20, de redao muito infeliz, dita que, "salvo se autorizadas (...). a divulgao de escritos, a transmisso da palavra, ou a publicao, a exposio ou a utilizao da imagem de uma pessoa podero ser proibidas (...) se lhe atingirem a honra, a boa fama ou a respeitabilidade, ou se se destinarem a fins comerciais". Pela letra fria dessa lei, toda biografia precisaria ser autorizada previamente pelo biografado ou por seus herdeiros. "Isso  um caso muito claro de censura", avalia o procurador regional da Repblica e professor de direito constitucional da Uerj Daniel Sarmento. "O Cdigo Civil d todo o peso  privacidade e nenhum  liberdade de expresso.' Nem na Frana, cuja lei protege mais a privacidade, h essa necessidade de autorizao prvia." A lei ameaa no s biografias: autores de livros de histria, de memrias e de reportagens jornalsticas estariam obrigados a fazer o beija-mo de qualquer personagem citado em um contexto que se possa interpretar como "privado". 
     A lei que chancela a censura, porm, no pode se sobrepor  Constituio. No se pode instituir a censura prvia no Brasil por meio de uma lei ordinria, quando a prpria Constituio, em seu pargrafo IX do artigo 5, determina: " livre a expresso da atividade intelectual, artstica, cientfica e de comunicao, independentemente de censura ou licena". Diz o advogado Manuel Alceu Affonso Ferreira, que atuou na defesa de Estrela Solitria quando a biografia esteve proibida por ordem judicial: "No tangente a figuras pblicas  polticas, autoridades, artistas , a liberdade de biografar no pode ser tolhida". Nesse sentido,  notvel a sentena dada pelo juiz Maurcio Magnus ao liberar a circulao de Sinfonia Minas Gerais  A Vida e a Literatura de Guimares Rosa, de Alaor Barbosa. A biografia era contestada por Vilma Guimares Rosa, filha do autor de Grande Serto: Veredas. Diz Magnus: " inadmissvel que o patrimnio cultural tenha dono". 
     A remunerao do biografado ou de seus herdeiros legais  uma questo menor. Para comeo de conversa, nenhuma biografia no mercado editorial brasileiro vai render fortuna suficiente para mudar a vida do autor ou de quem tiver participao no lucro da venda dos livros. Mas esse  um ponto facilmente negocivel entre as partes sem que, para solucion-lo, seja preciso recorrer  instalao da censura prvia no Brasil. Luiz Schwarcz, editor da Companhia das Letras  que publica os livros de Chico Buarque e de Ruy Castro , respondeu, no site da editora, com um texto elegante e incisivo: "Pela  lei vigente, os herdeiros se transformam em historiadores, editores e, desculpe-me, censores, sim". 
     Walter Isaacson, que escreveu a vida de Steve Jobs por encomenda do prprio, no aliviou a descrio dos modos despticos do criador da Apple. Em outros casos, porm, o biografado ou seus herdeiros desejam silenciar os fatos. A viva e as filhas do poeta Paulo Leminski esto tentando impedir uma reedio de Paulo Leminski  O Bandido que Sabia Latim, biografia escrita pelo jornalista Toninho Vaz, s porque o autor acrescentou ao livro um pargrafo com mais detalhes sobre o suicdio de Pedro, irmo do biografado. Lembra Vaz: "O prprio Leminski atribua importncia a isso. Ele era avesso a telefone, mas me ligou logo depois do suicdio do irmo". 
     Se, por bvios, os malefcios da censura prvia dispensam longas consideraes, os benefcios trazidos s sociedades pelos bigrafos merecem,  luz do atual momento, uma anlise mais detida. "A biografia  um modo de investigar de que forma as esferas pblica e privada se chocam na vida do indivduo", diz Lira Neto, bigrafo de Getlio Vargas (o autor, alis, considera abandonar o gnero por receio da ao de herdeiros censores).  essa fluidez entre o pblico e o privado que escapa aos defensores intransigentes do carter inviolvel da intimidade. No, bigrafos no esto apenas atrs da fofoca, como vm insinuando os porta-vozes do Procure Saber. "As pessoas que se opem a essa liberao esto mais preocupadas com as biografias calhordas do que com os trabalhos srios", diz o msico Roberto Frejat. Correto: e, contra os calhordas, cabem processo e pedidos de indenizao, jamais censura. Eis a palavra que eles querem evitar ("censor, eu? Nem morta!", protestou Caetano em sua coluna em O Globo). Mas  disso que se trata. As biografias so, desde a Antiguidade, fontes de informao preciosas  saberamos menos sobre Alexandre, o Grande, ou Jlio Csar sem as Vidas Paralelas, de Plutarco , mas no so apenas colees aleatrias de fatos: elas oferecem uma interpretao do personagem e de seu tempo (leia matria na pgina seguinte). "Nenhuma biografia  definitiva. Na Frana, deve estar na casa do milho o nmero de biografias de Napoleo, e a cada uma delas se renova a percepo sobre o personagem", diz a historiadora Mary Del Priore.  difcil e doloroso caracterizar Caetano, Gil, Chico e companhia como censores. No combina com eles e suas obras. Talvez essa recada no obscurantismo seja apenas uma pgina infeliz da nossa histria. 

PEQUENAS BIOGRAFIAS NO AUTORIZADAS
Rusgas, contradies e passagens embaraosas que Chico, Caetano, Gil e Roberto Carlos gostariam de minimizar ou manter longe dos olhos do pblico. Eles foram as fontes primrias de muitas delas. So fatos. Eles no desaparecem apenas porque as pessoas que os produziram resolveram recorrer  censura prvia para se preservar.

 CAETANO E CHICO A luta pelas conscincias no fim dos anos 60
"No , portanto, despropositada nem surpreendente a reao magoada que Chico externou numa entrevista ao Pasquim em sua volta da Itlia, depois de anos de autoexlio. Entrevista que, alis, ele quis excluir da seleo feita pelo Pasquim para publicao em livro.  preciso ter em mente que a glria indiscutvel de Chico nos anos 60 era um empecilho  afirmao do nosso projeto." 
Caetano Veloso, na autobiografia Verdade Tropical (Companhia das Leiras, 1997) 
"Eu nunca quis ser tradicional e nunca pretendi ser, apesar de fazer samba, entende? 
Criaram uma imagem minha que foi muito ruim pra mim, me chateou pessoalmente. No sei quem foi que resolveu fazer isso. No sei de que forma eles (Caetano e Gil) contriburam para isso. A partir da eu perdi um pouco o contato com eles." 
"Eu gosto de muita coisa do tropicalismo, eu posso gostar mais de uma coisa, menos de outra. Por isso que eu digo que, na interpretao de Carolina, eu fico sem saber o que h entre a pessoa dele (Caetano Veloso) e o disco gravado. Eu ouvi o disco uma vez s e confesso que no gostei e no quis ouvir mais, porque  um problema que eu no estava a fim de ficar pensando: ser que ele gravou de boa-f ou de ma-f?" 
Chico Buarque, em entrevista ao jornal O Pasquim (1970), cuja ntegra pode ser acessada no site oficial do compositor.

 CAETANO E GIL O poeta e o ministro
"Se um ministrio demonstra no aceitar crticas  pior: exige adeso total a suas decises , estamos sim a um passo do totalitarismo; se um poeta expe de pblico discordncia  ou simples desconfiana  dos rumos de um ministrio, temos democracia." 
Caetano Veloso, em carta aberta a Srgio S Leito, ento secretrio de Polticas Culturais do Ministrio da Cultura na gesto de Gilberto Gil. S Leilo chamara Ferreira Gullar de defensor do stalinismo, depois que o poeta fizera crticas  gesto do ministrio em sabatina promovida pela Folha de S.Paulo, que publicou o texto de Caetano (5/1/2006) 
As palavras do MinC no ensejam uma recusa  crtica, mas  um reconhecimento dela. E no ensejam atos de discriminao, mas debates livres, abertos, consequentes. Totalitrio seria  o MinC fazer algo contra Gullar, ou contra quem quer que seja.  Isso jamais acontecer." Gilberto Gil (na foto  esq.), em nota oficial do MinC (6/1/2006)

ROBERTO CARLOS Revelaes barradas
"A locomotiva avanou por cima do garoto que ficou preso embaixo do vago, tendo sua perninha direita imprensada sob as pesadas rodas de metal. (...) Diante da gritaria e do corre-corre, o maquinista Walter Sabino freou o trem, evitando consequncias ainda mais graves para o menino." 
Paulo Csar de Arajo, no livro Roberto Carlos era Detalhes (Planeta, 2006), no capitulo em que descreve o acidente que, em junho de 1947, provocou a amputao de parte da perna direita do cantor, ento com 6 anos de idade; Roberto entrou na Justia contra a obra e, em 2007, conseguiu que ela deixasse de circular 
"E o primeiro a mandar baia foi Roberto Carlos, numa madrugada de abril de 1966, em pleno centro de So Paulo. Ele regressava de um show a bordo de seu Impala com o baterista Ded, quando este alegou forte dor no brao, pedindo-lhe para estacionar na primeira farmcia que encontrasse. O cantor parou em frente a uma farmcia na Avenida So Joo e ficou no carro aguardando Ded. Em dado momento surgiram quatro rapazes que deixavam o estabelecimento. Um deles viu Roberto Carlos e exclamou: "Olha o cabeludo!"(...). Em seguida os quatro avanaram sobre o carro do cantor, tentando abrir a porta do veculo. Roberto Carlos no pensou duas vezes: pegou uma Beretta 6.35 que trazia no porta-luvas e rpido no gatilho fez dois disparos para o alto, colocando os elementos em fuga." 
"Aquilo deu muita dor de cabea a Roberto Carlos, pois teve de responder a inqurito por porte ilegal de armas e disparo na rua, sendo ameaado a dois anos de priso. 'Eu dei os tiros numa situao que qualquer cara teria dado. Qualquer pessoa no meu lugar, que tivesse uma arma na mo, naquela situao, teria feito o mesmo', defendeu-se o cantor, que na poca desapareceu por uns dias de circulao, ficando escondido na casa de campo da famlia Machado de Carvalho, em Congonhas. Mais tarde, Roberto Carlos acabou sendo absolvido sob o argumento da legtima defesa." 
Paulo Csar de Arajo, no livro Roberto Carlos em Detalhes (Planeia, 2006) 

CAETANO VELOSO Censura? No
"O livro deveria estar sendo vendido livremente. Vo queimar os livros? Se ainda fosse uma coisa caluniosa e ofensiva e que causasse danos objetivos... Sou contra." 
Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, sobre a proibio ao livro Roberto Carlos em Detalhes (11 de maio de 2007) 

COM REPORTAGEM DE BRUNO MEIER, SRGIO MARTINS E RINALDO GAMA


6#5 ESPECIAL  DETALHES NADA PEQUENOS
A compreenso do passado e do presente da humanidade deve muito  garimpagem obsessiva, pelos bigrafos, de cada momento obscuro da vida de personagens histricos.
TATIANA GIANINI

     No me pus a escrever histrias, mas vidas somente; e as mais altas e gloriosas proezas nem sempre so aquelas que mostram melhor o vcio e a virtude do homem. Ao contrrio, muitas vezes uma ligeira coisa, uma palavra ou uma brincadeira pem com mais clareza em evidncia o natural das pessoas." Assim escreveu h quase 2000 anos o grego Plutarco, autor das primeiras biografias de que se tem notcia, no captulo de Vidas Paralelas dedicado a Alexandre, rei macednio do sculo IV a.C. A busca pelo detalhe, pelo fato aparentemente banal que ajuda a reconstruir o carter e os gestos de pessoas reais,  o desafio dos bigrafos desde ento. Para uma vertente de historiadores, em especial aqueles que beberam da gua turva do marxismo, as biografias so obras menores e devem ficar fora da literatura acadmica, porque os acontecimentos histricos so consequncia apenas de processos sociais, e no da ao de indivduos. Essa  uma viso ultrapassada. Uma conferncia realizada em 2004 na Alemanha, que reuniu trinta historiadores de diversos pases, concluiu que era preciso "trazer as pessoas' de volta para a histria" e que "a biografia  o gnero certo para investigar certas questes'". Isso inclui entender como um homem comum se torna um ditador capaz das piores atrocidades ou como um artista constri sua fama e seu lugar na histria cultural de um pas. "As sociedades tm o direito de saber sobre o seu passado e o seu presente, e as biografias so parte disso, diz o ingls Jonathan Fenby, autor de O General, sobre o presidente francs Charles de Gaulle. 
     Algumas das informaes mais reveladoras sobre personalidades decisivas da histria so conhecidas por causa de biografias (veja o quadro abaixo). Muitos desses fatos jamais viriam a pblico se dependessem da autorizao dos familiares do biografado. "Eles tm uma tendncia natural a apagar o que  real, doloroso ou pouco lisonjeiro. Infelizmente, essas eliminaes privam a histria de vida de um personagem de sua profundidade", diz a americana Kitty Kelley, autora de biografias no autorizadas da apresentadora Oprah Winfrey, do cantor Frank Sinatra, da primeira-dama Jacqueline Kennedy e da atriz Elizabeth Taylor. Kelley  criticada por carregar nos detalhes ntimos de seus personagens, mas ela se defende dizendo que eles so necessrios para se contrapor  imagem pblica fabricada que as celebridades ou polticos querem perpetuar de si mesmos. Para reforar o seu argumento de que a censura prvia  pior do que eventuais desrespeitos  privacidade, Kelley cita uma frase do presidente americano John Kennedy (1917-1963): "O grande inimigo da verdade muitas vezes no  a mentira, deliberada, artificial e desonesta, mas o mito, este sim persistente, persuasivo e irrealista". 

ADOLF HITLER
BIOGRAFIA Hitler, do ingls Ian Kershaw, em dois volumes, de 1998 e 2000.
O QUE REVELOU Com base nos dirios do ministro da Propaganda nazista, Joseph Goebbels, os quais o autor encontrou nos arquivos soviticos em Moscou, ficou claro que o ditador alemo tinha controle direto dos crimes perpetrados por seu regime. Foi Hitler, por exemplo, quem deu a ordem para retirar a polcia das ruas durante a Kristallnacht, a Noite dos Cristais, em 1938, quando as multides atacaram impunemente judeus e destruram suas sinagogas e lojas  o primeiro passo para o posterior holocausto. 

MARIA ANTONIETA
BIOGRAFIA Maria Antonieta, do austraco Stefan Zweig, de 1932
O QUE REVELOU Autor de duas dezenas de biografias ou perfis, o escritor, que se suicidou no Brasil, em 1942, fez um aprofundado retrato psicolgico da rainha francesa, muito elogiado por seu amigo Sigmund Freud, o fundador da psicanlise. Hbil em dar vida s circunstncias da corte em que ela estava confinada, Zweig foi o primeiro a mostrar Antonieta como uma adolescente sexualmente frustrada, ignorada pelo rei Lus XVI. A consequente busca por outras formas de prazer e entretenimento rendeu  rainha a fama de ftil.

JOSEF STALIN
BIOGRAFIA Stalin - A Corte do Czar Vermelho, do ingls Simon Sebag Montefiore, de 2004
O QUE REVELOU Sempre h algo de novo a descobrir sobre Stalin, um dos personagens mais biografados da histria. Montefiore reconstruiu por meio de entrevistas com testemunhas histricas e documentos inditos a intimidade do poder no auge do terror stalinista, quando at os membros da elite poltica temiam a perseguio do ditador sovitico. Muitos mantinham malas prontas para a priso e pistolas sob o travesseiro para cometer suicdio a qualquer momento.

MAHATMA GANDHI
BIOGRAFIA Mahatma Gandhi e Sua Luta com a ndia, do americano Joseph Lelyveld, de 2011
O QUE REVELOU Com base em documentos e cartas inditas do lder indiano, o autor comprova que Gandhi no foi sempre um pacifista anticolonialista. Na verdade, ele participou diretamente de trs esforos de guerra. Em um deles, em 1918, liderou uma expedio pela ndia para recrutar soldados para lutar pelos ingleses na I Guerra Mundial. Ele prprio se apresentou como voluntrio. O livro foi proibido no estado indiano onde Gandhi nasceu, Gujarat. 

MAOTS-TUNG
BIOGRAFIA A Vida Privada do Camarada Mao, do chins Li Zhisui, de 1994
O QUE REVELOU O livro escrito pelo mdico pessoal do lder comunista exps os encontros sexuais de Mao com menores de idade, uma delas uma menina de apenas 14 anos. Li afirma tambm que Mao era estril e que o tratou diversas vezes de doenas venreas, sem jamais lhe contar o diagnstico, por medo. A pedofilia de Mao  um fato relevante para compreender o carter de um dos ditadores que menos escrpulos tiveram em deixar morrer milhes de cidados, de fome ou assassinados.

CHARLES DARWIN
BIOGRAFIA Darwin, dos ingleses James Moore e Adrian Desmond, de 1991
O QUE REVELOU Charles Darwin teria demorado duas dcadas para publicar sua obra mais conhecida, A Origem das Espcies, para no ferir as crenas religiosas de sua mulher. Ele s resolveu divulgar sua teoria revolucionria da seleo natural depois que outro cientista, Alfred Russel Wallace, enviou a ele em 1858 sua prpria pesquisa que tangenciava o assunto. O livro tambm trata da morte de sua filha Annie, aos 10 anos, de sade frgil, e de como ele buscou na cincia a explicao para essa tragdia familiar.

COM REPORTAGEM DE TMARA FISCH


6#6 TECNOLOGIA  UMA USINA DE TALENTOS
Foi nos parques tecnolgicos associados a universidades que surgiram algumas das empresas mais inovadoras do mundo, em uma combinao de pesquisa e conhecimento aplicado que comea a ganhar fora no Brasil.
BIANCA ALVARENGA

     A cada ano, a revista americana Fast Company, referncia em negcios e tecnologia, elege as cinquenta empresas mais inovadoras do mundo. O topo da lista costuma ser ocupado por gigantes internacionais como Nike, classificada em primeiro lugar no ranking de 2013, Google, Apple e Coca-Cola. Na 43 colocao estava a nica representante sul-americana entre as escolhidas. Trata-se da brasileira Enalta, uma empresa de tecnologia aplicada  agricultura. Apesar de pouco conhecida, a histria da Enalta traz uma origem comum  de outras campes em inovao. 
     O filme A Rede Social tornou-se um sucesso de bilheteria por contar a histria de uma rede de relacionamentos imaginada por um grupo de estudantes de Harvard. Foi dentro de uma universidade que surgiu a maior rede social do mundo, o Facebook. Phil Knight teve a  ideia da criao da Nike durante um MBA, enquanto ele finalizava seu curso de administrao na Universidade Stanford, o centro intelectual do Vale do Silcio, na Califrnia. Tambm em Stanford, Larry Page e Sergey Brin idealizaram o Google. Todos esses negcios extremamente bem-sucedidos despontaram como empresas incubadas, de uma maneira ou de outra, dentro de uma universidade. Essa tambm  a histria da Enalta, desenvolvida, h mais de dez anos, no ParqTec, parque tecnolgico em So Carlos, no interior de So Paulo. "No incio, contamos com a ajuda da diviso de tecnologia da Embrapa e com a mo de obra qualificada oferecida pelos alunos de engenharia da USP e da Universidade Federal de So Carlos. Era basicamente o que precisvamos", diz Clber Manzoni, fundador da Enalta, que obteve ainda um financiamento da Fundao de Amparo  Pesquisa do Estado de So Paulo, a Fapesp. O ambiente de pesquisa, a troca de informaes e contato com profissionais experientes fazem das universidades voltadas  tecnologia, assim como dos parques tecnolgicos ligados a elas, um espao propcio  criao e  inovao.  nesse meio que ideias saem do papel e do os primeiros passos na forma de pequenas empresas, as chamadas startups. Se promissoras, logo contaro com financiadores dispostos a apostar na rentabilidade futura do negcio. 
     Um caso emblemtico de colaborao mtua entre centros de pesquisa e uma empresa  a Embraer, por exemplo, cuja sede, em So Jos dos Campos, no interior de So Paulo, fica prximo ao Instituto Tecnolgico de Aeronutica (ITA) e ao Departamento de Cincia e Tecnologia Aeroespacial (DCTA). A Embraer  a maior e mais famosa, mas orbitando em torno dela e dos institutos de pesquisa surgem anualmente diversos negcios na rea de tecnologia.  o caso da Tirante A  Adventure Instruments, uma startup que desenvolve aparelhos de navegao de voo em esportes radicais, como paraquedismo. 
     Os parques tecnolgicos so os polos em que o conhecimento obtido na universidade  aplicado na criao de novos produtos, programas de computador ou substncias qumicas. Dentro dos parques esto as chamadas incubadoras, pequenas consultorias destinadas a transformar as ideias em empresas de verdade. No Brasil, as primeiras iniciativas para a criao de parques tecnolgicos ocorreram no incio dos anos 80. Enquanto o pas ainda engatinhava no setor, os americanos j contavam com mais de 100 parques tecnolgicos e incubadoras. Na Inglaterra, eram mais de sessenta. Somente em dezembro de 1984 o Brasil inaugurou oficialmente seus dois primeiros parques tecnolgicos: o ParqTec, em So Carlos, no interior de So Paulo, e o PaqTcPB, em Campina Grande, na Paraba. De l para c, outros 27 foram inaugurados. A China, que comeou a desenvolver seus parques na mesma poca que o Brasil, possui hoje cerca de 100 deles em plena operao, ocupando a terceira posio no ranking mundial. Os Estados Unidos lideram com 150 parques, seguidos pelo Japo, com 111. 
     O Brasil busca, agora, recuperar o atraso. Existem 23 parques em fase de instalao e o projeto de outros 36 em anlise. Esses centros de conhecimento aplicado ao empreendedorismo cumprem a funo, em primeiro lugar, de contribuir para a inovao. Tal efeito pode ser comprovado no Brasil pelo ltimo levantamento do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi), segundo o qual entre as quinze empresas ou instituies que mais ingressam com pedidos de patente oito so universidades ou institutos de pesquisa. Os parques so tambm importantes geradores de empregos qualificados. No Brasil, eles do trabalho a 45.000 pessoas, uma frao dos 380.000 empregados nos parques americanos, mas ainda assim um nmero considervel. O faturamento total das 5200 empresas existentes nos parques brasileiros foi de 4,6 bilhes de reais em 2011. Era mdia, o faturamento dos negcios embrionrios instalados dentro das incubadoras foi de 200.000 reais no ano. Nas empresas graduadas, aquelas que j saram da fase de incubao, foi de 1,6 milho de reais. 
     O empreendedorismo na rea da tecnologia sofre dificuldades similares s de qualquer outro negcio no Brasil, defrontando-se com a burocracia, a dificuldade em obter financiamento e a inexistncia de um clima mais favorvel para fazer com que as ideias inovadoras progridam e se transformem em grandes companhias globais. Praticamente metade das empresas nascidas no pas morre antes de completar o segundo ano de vida. Por isso, muitos empreendedores assumem uma atitude preguiosa e se resignam a operar negcios medianos em vez de ousar mais. Para Juliano Seabra, diretor da Endeavor, uma organizao voltada para o apoio ao empreendedorismo, a maior parte das empresas abertas no Brasil  criada apenas pela falta de oportunidade no mercado de trabalho, e no  fruto de um plano de negcios bem executado. Poucos tm em mente a mxima de que no existe negcio pequeno, existe negcio que est comeando. "H trs grandes problemas para a maior parte das pequenas empresas brasileiras: ambio pequena, baixo nvel de inovao do negcio e baixa capacitao dos empreendedores", afirma Seabra. Segundo Silvio Meira, idealizador do Porto Digital, parque tecnolgico voltado para a rea de software criado na antiga regio do cais no Recite, um grupo de empresas despreparadas aproveita o ambiente favorvel dos parques tecnolgicos para no ter de lidar com o mercado e com os eventuais fracassos de qualquer negcio. " preciso preparar tais empresas para viver no mundo real", afirma Meira, que est lanando seu mais novo livro. Novos Negcios Inovadores de Crescimento Empreendedor no Brasil, pela editora Casa da Palavra. O fundamental  no favorecer os indolentes e privilegiar os mais promissores. Afirma Meira: "As empresas inovadoras, com alta capacidade de crescimento, sero as responsveis por criar os postos de trabalho e contribuir de maneira mais eficiente para o crescimento do Brasil nos prximos anos". 

AS STARTUPS NO BRASIL
Empresas incubadoras e em operao nos parques tecnolgicos.
Parques tecnolgicos 29
Empresas 5200
Empregos 45.000
Faturamento (2011) 4,6 bilhes de reais
Taxa de sobrevivncia 49% no superam 2 anos de vida
Fontes: Ministrio da Cincia, tecnologia e Inovao e Associao Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos inovadores (Anprotec)

Tirante A  Adventure Instruments 
Ivan SantAnna e Renato Pisani estudavam projetos para criar uma startup quando tiveram a ideia de transformar hobby em oportunidade de negcio. Renato praticava parapente, e a dupla imaginou criar um navegador para esportes areos. "Sabamos que era um mercado pequeno, mas com pouca concorrncia", lembra Renato. Criaram a Tirante A, em So Jos dos Campos. Em 2009, venderam o primeiro navegador para voo livre. A empresa dever faturar 1 milho de reais neste ano, e 15% das vendas vo para o mercado externo. No momento, eles desenvolvem um aparelho para medir a eficincia e o desempenho de nadadores, uma espcie de tcnico digital. 

XMobots
Giovani Amianti e um grupo de amigos estavam no penltimo ano de mecatrnica na USP quando comearam a desenvolver aeronaves no tripuladas, os chamados drones. Durante o projeto, um professor deu a ideia que mudaria o curso do projeto: "Por que vocs no embarcam cmeras e fazem o monitoramento da transmisso dessas imagens?. Os colegas tomaram outro rumo, mas Amianti levou o projeto adiante e, com dois novos scios, fundou a XMobots em 2007, dentro da incubadora da USP, em So Paulo. A empresa desenvolve aeronaves para monitoramento areo e tem como um de seus clientes a Usina de Jirau, em Rondnia. 

Enalta
Formado em engenharia eletrnica com nfase em automao, Clber Manzoni j havia trabalhado com a Embrapa durante um projeto de iniciao cientfica. Foi a que ele entrou em contato com produtores de cana-de-acar e percebeu que as mquinas de plantio e colheita eram arcaicas demais diante da perspectiva de crescimento da produo. A Enalta surgiu para desenvolver alternativas de automao para essas mquinas. Mais tarde passou a desenvolver softwares de monitoramento de plantaes. A empresa possui 88 funcionrios e faturamento de 12 milhes de reais ao ano. Na sua carteia de clientes figuram nomes como a Odebrecht Agroindustrial e a International Paper. 

Sstra
Quando finalizava seu mestrado em aquicultura, em 2007, Fbio Neves conheceu a produo de microalgas, usadas para alimentar os peixes marinhos estudados em sua pesquisa. Observando uma termeltrica, ele percebeu que aquela fumaa que as caldeiras dispensavam poderia ser usada para o cultivo das microalgas. Foi ento que Fbio teve a ideia que levaria  fundao da Sston, trs anos depois, em Florianpolis. A empresa produz, mensalmente, cerca de 30 quilos de biomassa originria de microalgas. A maior parte  desidratada e transformada em cpsulas de suplementos alimentares ricos em mega-3, vendidas no mercado em parceria com um laboratrio.

Serttel
A pernambucana Serttel foi criada, h 25 anos, para produzir equipamentos como semforos e radares. Seu fundador, o engenheiro eltrico Angelo Leite, imaginava ir alm e desenvolver solues para a mobilidade nas grandes cidades. Com a inaugurao do Porto Digital, em 2000, no Recife, ele percebeu que aquela era a oportunidade de investir em tecnologia. Foi l que surgiram inovaes como a zona azul eletrnica e as bicicletas compartilhadas, presentes hoje no Rio de Janeiro, em So Paulo e no Recife. A Serttel produz tanto o software como as bicicletas. "Inovao no  uma obrigao,  uma necessidade, uma questo de sobrevivncia", afirma Leite. 

I-Systems
Formados pela Unicamp em 2005, Igor Santiago, Ronaldo Silva, Danilo Halla e Leonardo Freitas procuraram uma ps-graduao em inteligncia artificial e um curso de gesto de empresas no ano seguinte, com o objetivo de pr em prtica o que haviam aprendido na faculdade. Escolheram a automao industrial, um setor que demanda inovao continuamente. O primeiro cliente foi a Coca-Cola Femsa, para a qual desenvolveram um software capaz de reduzir em 11% as perdas de lquido no envase. No incio deste ano, receberam o primeiro aporte do Fundo Pitanga, que conta com nomes como os fundadores da Natura e o ex-presidente da Votorantim Novos Negcios. 


6#7 NEGCIOS  NA ROTA DO DINHEIRO NOVO
As marcas internacionais vo atrs da riqueza fora do eixo Rio-So Paulo  e, a fiar-se no sucesso inicial de vendas em Braslia, Recife ou Curitiba, a aposta foi boa.
ALVARO LEME

     No ser porque a temperatura mnima no inverno s muito raramente fica abaixo de 24 graus no Recife que as pessoas vo deixar de comprar uma autntica trench coat da Burberry. A capa de chuva de corte militar com o inimitvel forro de l xadrez  uma das especialidades da marca e item essencial do guarda-roupa na Inglaterra, pas onde a temperatura mdia no auge do vero dificilmente ultrapassa os 20 graus e beira zero grau no inverno. A loja da Burberry, aberta em dezembro no Recife, viu seu estoque mensal de capas de chuva evaporar em uma semana ao custo de 5000 reais cada uma. Ainda assim, as peas foram apenas o aperitivo para as vendas mais slidas das bolsas, algumas com preo de 9000 reais. Se faltam condies meteorolgicas para justificar o sucesso da invernal Burberry em regio de to baixa altitude e alta taxa de insolao, o que explica seu extraordinrio desempenho comercial naquelas paragens tropicais? O dinheiro. 
     Quem acompanha de perto os indicadores de venda das marcas internacionais no Brasil tem notado que, pouco a pouco, no apenas o Recife, mas tambm Braslia e Curitiba esto se consolidando como mercados atraentes para produtos caros. "Existe um dinheiro novo nessas regies, e as marcas seguem sua trilha", diz Carlos Ferreirinha, da MCF Consultoria, que produziu um mapa que mostra claramente o fenmeno ao qual ele se refere. H apenas trs anos, em 2010, o comrcio de produtos de marcas internacionais clebres era concentrado no eixo Rio-So Paulo, com 80% do total. Caiu para 65% e, consequentemente, a participao dos novos mercados no total subiu para 35%. 
     As mudanas so notveis. No comportamento do comprador, o que se verifica  um tal nimo de consumo que no se abalou nem com a recente alta do dlar. Os patamares de venda ficaram inalterados mesmo diante da recente e violenta variao para cima do cmbio. As lojas refletem essa disposio. Burberry, Gucci, Prada e Dior, cujos produtos antes eram vendidos principalmente em multimarcas, correram para abrir os prprios e exclusivos estabelecimentos. 
     Em Curitiba, o Ptio Batel, o mais novo shopping da capital paranaense, aberto em setembro passado, tem lojas exclusivas da Louis Vuitton, Tiffany & Co. e Versace. No RioMar, do Recife, inaugurado h um ano, a Burberry disputa os cartes black e platinum das clientes chiques com a alem Hugo Boss e a americana Coach. Quem teve de se mexer para se adaptar aos novos tempos foi a recifense Juliana Santos, proprietria da Dona Santa, a "Daslu do Nordeste". Juliana reforma agora um prdio para abrigar estandes da marca italiana Fendi e da francesa Chlo. Diz a empresria: "Mesmo se botasse um manto na arara no meio do vero venderia, e muito bem". Isso  sinal de prosperidade e de um enorme desejo reprimido de consumo de marcas clebres. Essa combinao, porm, embute um risco muito bem definido pela eterna Coco Chanel: "Algumas pessoas pensam que luxo  o oposto de pobreza. No . Luxo  o oposto da vulgaridade". 
     Para fincar base naquelas capitais, o investimento mdio das grandes marcas requer cerca de 5 milhes de reais. O retorno  quase certo, mas vai demorar de trs a cinco anos. Nem sempre  o lojista que paga a conta. "H casos em que o prprio shopping banca o custo total, s para ter uma marca dessas no seu portflio", afirma Silvio Passarelli, diretor do MBA de gesto do luxo da Faap, em So Paulo. Se a marca d prestgio ao shopping, ele tambm beneficia muito a grife, que precisa de uma localizao adequada para se instalar. Resume Luciana Marsicano, diretora-geral da Tiffany & Co. no Brasil: "Ningum abre uma joalheria no meio do nada. O ambiente em volta tem de combinar com o produto". Dinheiro chama dinheiro. Segundo o clculo de Emerson de Pieri, responsvel pelo Haliwell Bank na Amrica Latina, existem hoje no Brasil cerca de 139.000 pessoas com pelo menos 1 milho de dlares (2,2 milhes de reais) disponveis para ser gastos com produtos no essenciais. Pelas contas do Haliwell, s Curitiba tem hoje 3100 milionrios. Braslia conta com 2712. O Recife tem menos, 910, mas dispe de um diferencial que faz brilhar os olhos dos executivos. Os muito ricos da capital pernambucana ardem com a "excitao de consumo". 
     A febre de consumo de alto nvel no Recife atrai caravanas vindas das grandes cidades do Nordeste. "Muitos moram no interior, nunca foram a Londres ou Paris, mas se satisfazem nos shoppings do Recife", conta Camila Coutinho, 26 anos, a influente blogueira de moda na regio. A disposio para gastar em roupas e acessrios quase sempre  o indicador mais visvel de fortunas ainda maiores trocando de mos no comrcio de jatos executivos e carres. A BMW tem hoje em Curitiba seu terceiro maior mercado no Brasil, atrs de So Paulo e do Rio de Janeiro. No Distrito Federal, os mimos so os barcos. Mesmo os modelos  de menor efeito ostentatrio no Lago Sul so sucesso. "A venda de barcos de at 800.000 reais disparou", afirma Marcelo Cunha, que tem uma revenda nutica. 
     A despeito da euforia de vendas na nova fronteira do interior, o Brasil  ainda um protagonista modesto para os padres mundiais. Segundo a consultoria Bain & Company, o faturamento global das empresas de alto padro foi de cerca de 600 bilhes de reais em 2012, dos quais o Brasil ficou com minguado 1,2%. Algumas caractersticas tpicas do consumidor brasileiro so facilmente percebidas e atendidas.  S no Brasil as lojas da Tiffany & Co. tm mesas e cadeiras, pois o vendedor gasta cerca de 30% mais tempo com as compradoras aqui do que com as dos Estados Unidos e da Europa. Vencida a barreira da renda interna e das idiossincrasias locais, os elevados impostos e a infernal burocracia alfandegria brasileira so agora os grandes inimigos dos empresrios do ramo. Antes de descartar como fteis esses esforos, no custa refletir sobre a constatao do filsofo francs Jean Baudrillard: "A humanidade  fruto do desejo, e no da necessidade". 

O MAPA MUDOU
Um novo levantamento mostra que o mercado de luxo avana rapidamente em cidades brasileiras distantes do eixo Rio-So Paulo.
2010
15,7 bilhes de reais
Rio e So Paulo: 80% - 12,5 bilhes de reais
Outras cidades: 20% - 3,2 bilhes de reais

2011
23,5 bilhes de reais (projeo)
Rio e So Paulo: 65% - 15,3 bilhes de reais
Outras cidades: 35% - 8,2 bilhes de reais

Fonte: MCF Consultoria


6#8 SOCIEDADE  FUNK MAIS PREPARADO
Cantores agora fazem terapia, curso de ingls e de oratria. Aprimorados, diversificam o pblico e aumentam o apelo publicitrio.
MARLIA LEONI

     O funk tem muito palavro e aluses grosseiras a sexo. Muitos funkeiros lanam uma msica de sucesso, que explode na internet e chega at a televiso, mas depois somem do mapa, incapazes de reproduzir aquele estouro num segundo CD. Como as msicas so muito parecidas e inmeros os aspirantes a um lugar ao sol, dispostos a aumentar cada vez mais o tom das apelaes, a canibalizaco se repete. Ou se repetia antes que cuidadores profissionais de carreiras comeassem a se preocupar com o aumento da sobrevida dos que j conseguiram se destacar. Empresrios de artistas como Anitta e Naldo esto cuidando da lapidao comportamental, visual e at emocional de seus clientes, interessados principalmente em faz-los atingir camadas mais diversificadas de pblico. 
     "Estudei como trabalham os empresrios de msicos americanos e resolvi copi-los em um aspecto: cliente meu tem de fazer terapia, coaching e falar pelo menos uma lngua estrangeira", diz Kamilla Fialho, empresria que cuida da carreira de Anitta. A partir desta semana, por sugesto dela, Anitta ter um professor de ingls em tempo integral acompanhando-a em shows, apresentaes e gravaes. A ideia  preparar a cantora para uma carreira internacional. "Alm disso, a terapia  fundamental para uma menina que veio de uma famlia humilde e, agora, lida com dinheiro e fama. Ela precisa aprender a separar a Anitta da Larissa, seu verdadeiro nome. Hoje, ela  10% Larissa e 90% Anitta." 
     O processo no  muito diferente do de profissionais de reas mais convencionais que sobem depressa na carreira e precisam lidar com papis de maior destaque. O preparador de atores Alexandre Bordallo hoje tambm se dedica a treinar jovens cantores para participar de programas de televiso e falar com jornalistas. Como parte do treinamento, ele indica listas de livros e filmes que os cantores devem conhecer para "desenvolver a fala, corrigir erros de portugus e aprender a responder a questes relacionadas a universos que no o do funk", explica Bordallo. O funkeiro carioca MC Tarapi, 25, um de seus clientes, recebeu a tarefa de ler livros de poesia e de escritores como Jorge Amado e Gabriel Garcia Mrquez. "Ler esses textos ajuda a expandir o meu vocabulrio", diz Tarapi, consciente da incumbncia. Se ainda no est completamente  vontade no mundo das letras, ele j se adaptou completamente ao das celebridades:  amigo de Preta Gil e Neymar. 
     Ao diversificarem o pblico, os cantores aumentam tambm seu apelo publicitrio. "Quanto mais se tornarem figuras interessantes, mais produtos eles sero capazes de vender", diz o produtor musical Brendan Duffey, que trabalha com bandas de rock brasileiras. Ele d um exemplo atual no seu meio: "A moda entre essas bandas  lanar as prprias cervejas. No importa se elas so boas ou ruins, mas certamente as vendas esto relacionadas  imagem dos roqueiros". 
     Uma das veteranas no ramo do pancado, a curvilnea Valesca Popozuda aderiu  repaginao. "Contratei uma stylist que me apresentou marcas como Givenchy, Chanel e Valentino", enumera. O novo visual "abriu portas". Em um grande desfile de moda no Rio de Janeiro, Valesca foi convidada a se sentar na primeira e cobiada fila de espectadores. "Ela foi de coque banana e escarpim. Chegou com a Giovanna Antonelli, e todos estavam to surpresos que s tinham olhos para ela", orgulha-se a responsvel pela mudana, a stylist Marcella Vinhaes. "Chorei de emoo." Destaque na atual constelao de funkeiros, o cantor Naldo est totalmente antenado com a necessidade de aprimoramento. "Sempre tive em mente que queria tocar nos programas de TV de domingo  tarde", diz. Para isso, passou a pegar mais leve nas letras: "Minha me  evanglica. Mostro minhas msicas para ela. Se tem palavro ou algo muito sensual, ela manda tirar". Pode ser que a me no oua certos detalhes, mas em janeiro Naldo far parte de um programa dominical na Rede Globo. E sonha com uma carreira nos Estados Unidos. "Se ele tem trs dias de folga, viaja para Miami. Hoje, j vai sozinho e se vira muito bem por l", conta Christina Campos, uma das assessoras de Naldo. Se cuida, Kanye West. 


6#9 GASTRONOMIA  NA FOGUEIRA DAS VAIDADES
ALVARO LEME

     O chef argentino Francis Mallmann, de 57 anos, ainda exibia vasta cabeleira e fazia nouvelle cuisine em Buenos Aires quando despontou sob a inspirao de Pierre Troigros e Roger Verg, de quem fora discpulo em Paris. Em 1995, venceu o Grand Prix de LArt de La Cuisine, conquistando espao ao lado de chefs destacados como Alain Ducasse e Ferran Adri. No ms passado, Mallmann fez o tempo esquentar na gastronomia, mas longe do fogo. O argentino lanou suspeitas sobre os critrios de premiao da respeitada revista inglesa Restaurant. Na entrevista a VEJA, Mallmann, que ganhou um prmio da revista em 2002, explica por que abandonou o jri da Restaurant. Ex-chef do restaurante A Figueira Rubaiyat, de So Paulo, Mallmann considera a cozinha brasileira muito superior  argentina.

DESERO DO JRI
Rompi com a Restaurant porque no acredito que esse sistema em que chefs de cozinha avaliam os prprios pares possa ser isento. Quem conhece o meio sabe: todo mundo faz parte de uma turma. Eles se falam, combinam voto, entram em campanha pesada pelo colega e por si mesmos. Esse, alis,  um outro ponto. Os chefs deixam de lado o fogo e passam a agir como lobistas. J ouvi at falar de banquetes memorveis preparados especialmente para os jurados. Se formos examinar a agenda dos que esto no topo da lista, no h surpresa: eles certamente dedicaram mais tempo ao marketing pessoal do que  culinria. Nos primeiros tempos do prmio no era assim, mas,  medida que ele foi ganhando prestgio, essas prticas se disseminaram. Sinceramente, com essa politicagem toda acho que quem sai perdendo mesmo so as pessoas que vo ao restaurante e pagam caro para comer bem. 

ESQUEA A ESPUMA 
Os jovens chefs buscam o caminho mais curto para o pdio. Inventam uma espuma e acham que todo mundo vai cair de joelhos. Eles no tm pacincia para as etapas que qualquer um precisa percorrer para adquirir a tcnica e ir lapidando o talento e os sentidos. Sim, porque para ter o olfato e o paladar depurados e a mo certeira  preciso repetir o preparo de um prato, eu diria, umas 3000 vezes.  chato, maante, mas, sem isso, no d para chegar  maturidade. Pois o que mais se v por a  justamente o contrrio: o jovem passa dez dias na Tailndia, visita o mercado local, experimenta um prato aqui, outro ali, e abre um restaurante tailands  No tem jeito de ser um bom restaurante. 

INOVAO? NO. IMPROVISO 
Os ancestrais humanos aprenderam a fazer fogo controlado h mais de 1 milho de anos. Portanto,  difcil surgir uma novidade genuna ao fogo. Muita gente quer inventar e erra na mo. Outro dia, eu estava no Jean-Georges, de Miami, e dei de cara com um chimichurri tailands no cardpio. Isso mesmo: tailands. Senti-me como se tivessem violado a minha me: o chimichurri  um molho tradicional argentino. Outros acham que oferecer carpaccio de avestruz  inovar. No fundo,  s improviso. Ferran Adri, que  referncia no campo das inovaes gastronmicas, tem uma formao clssica considervel. Depois de Fernand Point, nos anos 30 e 40, e dos expoentes da nouvelle cuisine, entre os 70 e 80, foi Adri que orquestrou a maior revoluo na culinria. Pessoalmente, no gosto muito da comida que ele faz, mas  um mestre. 

EMPFIA DA JUVENTUDE 
Quando vou a um restaurante estrelado, peo ao garom que se limite a trazer os pratos, sem ficar explicando como foram preparados. Esse ritual todo  um exerccio de narcisismo de certos chefs, que agem como se a refeio fosse um culto a eles. Eu j me senti muito assim. Tinha 21 anos quando voltei  Argentina depois de uma longa temporada em Paris aprendendo com grandes nomes da cozinha mundial. Um dia, a joalheria Cartier fechou para uma festa o restaurante onde eu trabalhava e criei um menu francs bem nouvelle cuisine. Eu me sentia no auge, perto da perfeio. At que o presidente da Cartier me chamou num canto e disse sem nenhum rodeio: "Isso aqui no tem nada a ver com a Frana". Fiquei com aquilo entalado na garganta por mais de dez anos, at que entendi onde estava o erro: tinha feito uma comida sem graa, sem alma. Comecei a perder ali a empfia da juventude. 

PURA GANNCIA 
Na alta gastronomia, no h como no cobrar caro. As margens de lucro so estreitssimas quando se equipa um restaurante com copos de cristal e talheres de prata e s se usam na cozinha os melhores ingredientes e braos. Para mim, as maiores distores acontecem mesmo nas casas de nvel mediano, onde a matria-prima dos pratos  barata e o servio apenas satisfatrio. Olhe o preo de uma pizza no Brasil: 70, s vezes at 100 reais, por algo que no tem mistrio nenhum para preparar, muito menos refinamento. Agora, se o cozinheiro acrescenta um queijo de primeira, produz o molho artesanalmente e vai assim agregando valor  farinha com ovo, v l, pode cobrar um pouco mais. Do contrrio,  pura ganncia. 

O JAPO NO MAPA 
Os franceses construram sua cozinha de forma meticulosa e impecvel, s que se acomodaram no topo, abrindo caminho para que os espanhis e italianos os alcanassem. Mas Paris ainda  a melhor cidade do mundo para comer por aliar duas qualidades raras: refeies simples com qualidade. Curiosamente  Tquio que detm mais estrelas no Guia Michelin. D para entender. Os japoneses tm a disciplina e a obsesso necessrias para ir longe na cozinha. 

TEM BRASILEIRO DEMAIS 
No acho justo que o Brasil tenha cinquenta jurados no prmio da Restaurant,  o mesmo que todos os pases vizinhos somados. Evidentemente que isso  desproporcional. Mas, por favor, no digam que  picuinha de argentino. Os brasileiros esto pelo menos dez anos  frente do resto do continente na culinria. So Paulo  a capital gastronmica da Amrica do Sul. Buenos Aires no chega nem perto. 
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7# GUIA 

	7#1 TRATAMENTOS SEM SAIR DE CASA
	7#2 CLAREAMENTO  COM O DENTISTA
	7#3 MINICHOQUES CONTRA A DOR

7#1 TRATAMENTOS SEM SAIR DE CASA
POPULARES NOS ESTADOS UNIDOS, ONDE A CADA SEMANA SURGEM LANAMENTOS DE TODOS OS TIPOS, OS AT-HOME BEAUTY DEVICES, COMO SO CHAMADOS OS APARELHOS DE BELEZA OU COSMTICA PARA USO DOMSTICO, COMEAM A GANHAR CADA VEZ MAIS ADEPTOS NO BRASIL.

Entre as solues caseiras disponveis no mercado, h desde equipamentos para fortalecer os cabelos at aqueles para eliminar pelos ou tratar a acne. Alguns dispositivos evitam as idas frequentes aos consultrios mdicos; outros potencializam e prolongam os resultados obtidos com tratamentos feitos em clnicas. A seguir, especialistas dizem o que esperar de alguns desses produtos.

DEPILADOR DEFINITIVO
Registrados na Agncia Nacional de Vigilncia Sanitria (Anvisa), alguns aparelhos de depilao para uso domstico, como o Silkn, da empresa de mesmo nome, e o I-Light Pr, da Remington, usam a tecnologia da luz pulsada para dar fim aos pelos. O princpio  o mesmo do laser empregado nas clnicas: ao penetrar na pele, a luz aquece o local, enfraquece os folculos e faz com que os pelos parem de crescer 
O que dizem os mdicos: como usam uma energia trs vezes menos intensa que a dos equipamentos profissionais, os de uso domstico tm um poder de destruio inferior. Um estudo divulgado pela Remington, por exemplo, mostra uma reduo de quase metade dos pelos seis meses aps as trs sesses recomendadas. Em consultrio, a reduo costuma ser de 70%. Outra ressalva: a baixa energia pode causar um efeito pouco comum, mas bastante indesejado  o de fazer crescer ainda mais pelos. "Esse efeito colateral  mais visto entre pessoas que tm uma forte influncia hormonal, o que se expressa por meio de pelos em excesso ou de acne durante o perodo menstrual", diz o mdico Alexandre Filippo, coordenador do departamento de laser da Sociedade Brasileira de Dermatologia do Rio de Janeiro 
Custo: enquanto em consultrio so cobrados cerca de 500 reais pela depilao definitiva de uma rea pequena, como as axilas, um aparelho de uso domstico indicado para reas do corpo como pernas, braos, axilas e virilhas custa entre 1500 e 2300 reais 

LUZ CONTRA A ACNE
Alguns aparelhos portteis, como o Acne Light, da empresa DMC, e o Blue, da Silk'n, usam a luz azul de LED para combater a acne. De acordo com os fabricantes, o dispositivo deve ser utilizado diariamente por cerca de trs minutos sobre as reas inflamadas. O tratamento, segundo eles, leva de trs a sete semanas para surtir efeito 
O que dizem os mdicos: um estudo conduzido pela dermatologista Anne Chapas, do Centro de Laser e Cirurgia Dermatolgica de Nova York, nos Estados Unidos, mostrou que a luz azul, especialmente quando combinada com outros cuidados, como loes de limpeza e tratamentos tpicos ou orais prescritos por um mdico, melhora no s a acne como a textura da pele. "A luz azul combate as bactrias que causam a acne. Mas, como no elimina o problema por completo,  indicada apenas como tratamento complementar", diz Filippo 
Custo: em consultrio, os  dermatologistas costumam combinar  a luz azul (com efeito bactericida)  luz vermelha (com poder anti-inflamatrio).  Por enquanto, apenas produtos  vendidos no exterior, como o Claro, da Solta Medical, unem essas duas tecnologias. Nas clnicas, o tratamento geralmente dura dois meses, durante os quais o paciente  submetido a duas sesses semanais a um custo total de 1600 reais. J os aparelhos de uso domstico podem ser encontrados no Brasil por valores que vo de 750 a 900 reais

LASER ANTIRRUGAS
O primeiro laser de uso caseiro aprovado pela Food and Drug Administration (FDA), a agncia americana que regula o consumo de alimentos e remdios,  tambm um dos aparelhos de beleza de maior sucesso em vendas nos Estados Unidos. Com a proposta de atenuar as rugas que se formam ao redor dos olhos, a Palomar, empresa que desenvolveu o PaloVia, sugere que o equipamento seja utilizado diariamente, por um ms. Durante as sesses, que duram de trs a quatro minutos, o consumidor espalha um gel na rea a ser tratada e, em seguida, dispara o laser por alguns segundos
O que dizem os mdicos: o disparo do laser fracionado provoca microfuros na pele, estimulando a produo de colgeno. "Com isso, a pele  revitalizada e as rugas, atenuadas", diz o dermatologista Alexandre Filippo 
Custo: 500 dlares  o equivalente a 1100 reais 

ESCOVA A LASER
"Laser", no caso,  s um apelido comercial: essas escovas de uso caseiro utilizam raios infravermelhos para melhorar a circulao sangunea do couro cabeludo, e prometem assim aumentar o dimetro dos fios e prolongar a fase de crescimento deles. O fabricante recomenda trs aplicaes de quinze minutos por semana
O que dizem os mdicos: estudos mostram que, por estimular os folculos, a luz infravermelha melhora em at 17% a espessura dos fios. Mas no evita a queda deles, nem faz com que fios novos surjam. "A perda capilar pode ter origem gentica, hormonal, medicamentosa. E s  combatida quando se descobre a sua causa", diz Filippo. Outra ressalva: enquanto o aparelho de uso profissional tem entre 500 e 1000 lmpadas de LED, o domstico tem cerca de quinze  ou seja, , se tanto, apenas um coadjuvante no tratamento capilar
Custo: de 500 a 1000 reais

OS RISCOS DO EXTERMINADOR DE VERRUGAS
Do laboratrio Genomma, o produto para eliminar verrugas emprega um princpio semelhante ao de congelamento por nitrognio lquido usado nos consultrios. Mas, embora tenha o aval da Anvisa, a soluo, encontrada em farmcias por cerca de 90 reais, costuma ser contraindicada pelos mdicos. "Temos recebido muitos relatos de complicaes pelo uso desse tipo de produto, como queimaduras, feridas e infeces locais", diz a mdica Denise Steiner, presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia. Outro temor dos especialistas  que o consumidor confunda pintas ou leses com verrugas e cause assim uma agresso que pode, no futuro, dar origem a um cncer de pele


7#2 CLAREAMENTO  COM O DENTISTA
Os gis  base de perxido de carbamida e de hidrognio  substncias que quebram as molculas de pigmento que se formam sobre os dentes  ainda so os mtodos mais eficientes de clareamento. Mas o sorriso branco depende, invariavelmente, da forma como esses produtos so usados. "A soluo mais barata, eficaz e duradoura para clarear os dentes  utilizar, em casa, uma moldeira feita sob medida pelo dentista, com gis fornecidos por ele numa concentrao segura e adequada", diz Maura Piragibe Jnior, consultor da Associao Brasileira de Odontologia. A seguir, ele avalia alguns produtos que podem ser encontrados nas prateleiras de farmcias e lojas especializadas. 

FITAS BRANQUEADORAS 
Com perxido de hidrognio a uma concentrao de 10%  a mesma usada pelos dentistas para clareamentos caseiros , o produto peca pela pouca quantidade de gel contida na superfcie e por sua m fixao sobre a arcada dentria. Esses dois motivos fazem com que boa parte dos consumidores note apenas um discreto clareamento aps os sete dias recomendados para o tratamento 
Preo: 70 reais 

APARELHOS PORTTEIS 
Os equipamentos comercialmente chamados de clareadores a laser, com uma moldeira acoplada, emitem uma luz azul que, segundo os fabricantes, potencializaria o efeito do gel. No  bem assim, dizem os especialistas da rea, "Em primeiro lugar, eles no emitem laser, mas sim uma luz azul qualquer. Depois, vale lembrar que diversos estudos vm indicando que mesmo a luz usada por dentistas no  decisiva na qualidade do clareamento. Ou seja, esses aparelhos so mais comerciais do que funcionais", diz Piragibe 
Preo: de 180 a 500 reais 

KITS CLAREADORES 
Vendidos de forma indiscriminada por algumas lojas de produtos odontolgicos, os kits com gel clareador e uma moldeira que, depois de amolecida em gua quente,  encaixada na arcada dentria oferecem diversos riscos. "Como a moldeira no  personalizada, o produto pode vazar, causando queimaduras e retraes irreversveis na gengiva, alm de feridas na boca", alerta Piragibe 
Preo: de 70 a 110 reais 


7#3 MINICHOQUES CONTRA A DOR
Verso compacta e sem fio do tens, um dispositivo de eletroestimulao nervosa usado por clnicas de fisioterapia para aliviar dores musculares, o Tanyx, um aparelhinho a bateria vendido desde maro pelas farmcias,  uma forma de amenizar essas dores sem ter de se deslocar at o consultrio. 
Como funciona: com duas placas de gel nas extremidades para conduzir as ondas eltricas, o aparelho com 15 centmetros de comprimento deve ser posto sobre o local da dor por cerca de vinte minutos. "Estudos cientficos mostram que essa estimulao eltrica faz com que o corpo libere endorfina, capaz de aumentar o relaxamento muscular e diminuir a sensibilidade  dor", diz o fisioterapeuta Luiz Alberto Rosan 
Quando traz alvio: o tens porttil  indicado para dores musculares, clicas menstruais, tendinites e alguns tipos de artrose 
Preo: 60 reais. O aparelho funciona at que a bateria se esgote  o que leva cerca de seis horas, ou dezoito sesses, para acontecer

GABRIELLA SANDOVAL gabrietta.sandoval@abril.com.br 
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8# ARTES E ESPETCULOS 

	8#1 TELEVISO  LIBEROU GERAL
	8#2 LIVROS  MILAGRE DAS VENDAS
	8#3 CINEMA  TODA FOFA
	8#4 CINEMA  ZONA DE SOMBRA
	8#5 VEJA RECOMENDA
	8#6 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
	8#7 ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  O LIVRO DO ALFERES

8#1 TELEVISO  LIBEROU GERAL
A revoluo sexual chegou com tudo aos seriados americanos. E, enquanto a TV fica abusada, o cinema anda cada vez mais carola.
MARCELO MARTHE

     Na cama de um bordel, a prostituta acaricia-se diante dos olhos do mdico William Masters (Michael Sheen). Ele quer que a moa chegue ao orgasmo. Ela tenta, mas no consegue. A prostituta ento se coloca numa postura mais, digamos, exposta: confessando que s costuma atingir o clmax quando leva umas palmadas no traseiro, pede ao doutor que lhe d uma ajudinha. Masters hesita por um segundo, mas logo deixa o pudor de lado e enche a mo con gusto. Descrita assim, de forma nua e crua, a cena se encaixaria melhor em um filme ertico de segunda categoria do que numa produo respeitvel. Mas a causa defendida por Masters  nobre: ele faz tudo em nome da cincia. Produzida pelo canal americano Showtime e lanada h duas semanas no Brasil pela HBO, a srie Masters of Sex (Mestres do Sexo) dramatiza a vida de um casal que revolucionou o estudo do comportamento. Nos anos 1950 e 1960, o ginecologista Masters e sua assistente e futura mulher, Virginia Johnson (Lizzy Caplan), devotaram-se ao mapeamento das reaes fisiolgicas de centenas de homens e mulheres durante o sexo. Com o auxlio de aparelhos como uma espcie de estimulador capaz de captar o que se passava dentro do corpo feminino no momento da relao, a dupla iluminou certos mecanismos do prazer que eram um mistrio at ento. Ao centrar-se nas pesquisas de Masters e Virgnia, a srie no perde tempo com eufemismos: a nudez, o contato entre os corpos e os gemidos de excitao so decupados com eloquncia naturalista. Masters of Sex  a prova do clima de liberao geral e irrestrita que se instalou na TV a cabo americana: seus roteiristas, hoje, parecem s pensar naquilo. Mas tudo em nome da arte, claro. 
     O papel de testar esses limites j coube, um dia, ao cinema. Tome-se a notria cena em que os personagens de Marlon Brando e Maria Schneider faziam um uso nada protocolar da manteiga no filme ltimo Tango em Paris, dirigido por Bernardo Benolucci em 1972. Havia libido em Hollywood, ainda, nos tempos em que Sharon Stone aprontava misrias no sucesso Invaso de Privacidade, de 1993. Mas, tanto nas produes juvenis (e portanto mais brandas) quanto nas adultas, porm muito castas, do cinema americano da atualidade, cenas assim se tornaram uma improbabilidade estatstica. Esse vcuo foi preenchido pelas sries. Sem preconceito de gnero ou modalidade, a TV vem estendendo  e como  as fronteiras da prospeco sexual na fico. 
     O sexo se integra com naturalidade nessa paisagem. Afinal, se a fora das sries americanas reside na riqueza interior de seus personagens, no seria possvel relevar um elemento to central da existncia humana. Os protagonistas dos seriados, assim, vm se tornando figuras cada vez mais de carne que de osso. Mad Men  talvez o caso mais exemplar do sentido que isso pode adquirir: no mundo da publicidade dos anos 1960 retratado pela srie, as pessoas respiram sexo  que, quase sempre, adquire as conotaes de poder, controle, dominncia. O protagonista Don Draper (Jon Hamm)  algo como um sedutor serial. Conquista clientes, vizinhas, secretrias, e com cada nova amante estabelece um intrincado jogo de sujeio ou ascendncia. Mas as conquistas, em vez de aplacar, s amplificam o vazio de sua existncia. Em Masters of Sex, a lascvia tambm serve para expor uma contradio irnica. William Masters estuda o sexo num bordel infecto. Na vida privada,  reprimido, quase assexuado. A bem resolvida Virgnia, que foi cantora de boate antes de virar sua assistente,  o oposto. 
     Embora seja saudvel essa ausncia de travas, por vezes se percebe um qu de cacoete por baixo de tanta excitao. Para a TV a cabo, o sexo funciona como um atestado de que se trata de fico "adulta". Nem sempre, porm, sua presena  necessria ao bom andamento da trama. Em alguns seriados, a sobrecarga de sexo denuncia o exibicionismo dos intrpretes. Em Girls, no se passa um episdio sem que a criadora e protagonista Lena Dunham  um talento do tipo cheinho  se jogue na cama com um garoto. Mas o que a princpio era uma forma esperta de abordar a afirmao das jovens da chamada gerao hipster ganhou um vis francamente narcisista na segunda temporada. Em The Tudors, o gal Jonathan Rhys Meyers encarna um Henrique VIII que no perde uma chance de exibir o corpo. O sexo tem uma funo mais relevante na fantasia Game of Thrones, da HBO:  um dado revelador da sede de poder dos personagens  o que se ilustrou de forma chocante nas cenas de incesto entre a rainha Cersei (Lena Headey) e o irmo Jaime (Nikolaj Coster-Waldau). Mas que a srie tem l seu tanto de sexo gratuito,  inegvel. Num vdeo satrico que faz sucesso na internet, aspirantes a atores deixam parentes e amigos em choque ao narrar as cenas de sexo que gravaram a ttulo de teste numa nova produo americana. Mas todos respiram aliviados quando eles esclarecem: "No  porn.  HBO". Quem faz fama, deita na cama. 

QUANDO O SEXO ...
..sintoma existencial
Don Draper, o grande e infeliz sedutor de MAD MEN, cresceu num bordel, privado de afeto e cercado de sexo. Adulto, Don se reinventou como gnio publicitrio. Mas no foi capaz de reinventar sua viso do sexo:  cronicamente infiel porque o contato carnal  a nica forma de conexo pessoal que ele conhece. Como nunca preenche seu vazio ntimo, porm, l vai Don seduzir outra mulher, e outra, e outra ainda.

..vcio
Sexo e literatura so os motores do escritor Hank Moody, o cnico heri de CALIFORNICATION  mas quase no se v o personagem escrevendo. Hank persegue compulsivamente toda jovem mulher cujo caminho atravessa. H a um tanto de angstia, mas temperada pela frivolidade de Los Angeles.

..coisa de mulherzinha
Mesmo nos seriados mais ousados levados hoje  televiso, prevalece a perspectiva masculina sobre o sexo. No em GIRLS: o sexo como afirmao, como experimentao, como forma de estabelecer uma conexo ou nos percalos da iniciao  visto (e muito visto, diga-se) sempre pela lgica das suas jovens protagonistas.

..perverso
Um encontro de ano Tyrion com uma prostituta, uma orgia desenfreada e uma cena chocante entre a rainha Cersei e seu irmo gmeo, Jaime: j no captulo inaugural de GAME OF THRONES ficou claro que o sexo, aqui,  frequente, lascivo, variado e sem barreiras. E , sobretudo, indicativo do carter de cada personagem e de sua atitude com relao ao poder.

.."deixa" histrica
Sedutor serial e seis vezes casado, Henrique VIII virou a Europa pelo avesso para satisfazer seu desejo pela segunda de suas esposas, a arrivista Ana Bolena. A luxria de Henrique foi a deixa para THE TUDORS encher todos os seus episdios com coloridas e titilantes cenas de sexo: para a audincia, havia o pretexto de que elas estavam l pela histria, claro.


8#2 LIVROS  MILAGRE DAS VENDAS
A Igreja Universal do Reino de Deus montou uma estratgia colossal para levar Nada a Perder, a autobiografia de Edir Macedo, ao topo das listas de best-sellers. E o bispo nem aparece nos autgrafos
BRUNO MEIER

Maria das Graas? Graas a Deus!", bradou o bispo Domingos Siqueira ao ouvir o nome da senhora que ocupava o primeiro lugar da fila de autgrafos de Nada a Perder 2. H duas semanas, num sbado ensolarado, a carioca Maria das Graas chegou s 7 da manh e tomou a frente dos 13.000 fiis da Igreja Universal do Reino de Deus que incrementaram o movimento de um shopping  beira da BR-101 em So Jos, municpio da Grande Florianpolis. Vinda de todos os cantos de Santa Catarina, em 100 nibus (o primeiro deles saiu s 11 da noite do dia anterior e viajou 450 quilmetros), a massa de pessoas que se enfileirou ao longo dos corredores e at do estacionamento do shopping era composta, na maioria, de famlias, vrias delas com crianas e idosos que enfrentavam at quatro horas de espera. Muitos homens vestiam cala social e camisa abotoada at o colarinho. "Tem gente aqui que nunca pisou numa escada rolante", dizia o organizador Giovanni Oliveira, da Record Entretenimento. Extrovertido, Domingos Siqueira vibrava sempre que aparecia algum com uma pilha de livros  mas poucas vezes olhava diretamente para o rosto dos que vinham pedir sua assinatura. O bispo no  autor nem coautor do livro que autografou. Os dois volumes de Nada a Perder (um terceiro tem publicao prevista para 2014) constituem um relato autobiogrfico do chefe da igreja de Siqueira, o tambm bispo Edir Macedo, com redao de Douglas Tavolaro, vice-presidente de jornalismo da Rede Record. No entanto, a presena de um mero "representante" de Macedo  bastou para atrair uma multido de fiis quela loja das Livrarias Curitiba  foi um recorde absoluto nos cinquenta anos de existncia da rede, hoje a maior no mercado livreiro de Santa Catarina e do Paran. Venderam-se mais de 21.000 exemplares, marca superada logo na semana seguinte: em Curitiba, 29.000 evanglicos compraram de uma tacada 40.000 exemplares. Com pelo menos um evento dessa monta por semana, Nada a Perder 2  atualmente o livro mais vendido do pas. "A estratgia  alcanar a liderana das listas de mais vendidos toda semana", atesta um livreiro paulista. 
     O livro  editado pela Planeta, grupo internacional que lidera os mercados editoriais espanhol e latino-americano, regies onde a Universal tambm tem presena substantiva. Graas a esse arranjo, eventos de lanamento foram feitos em livrarias de Buenos Aires e Caracas  e tambm em Nova York e Hong Kong, entre outras grandes metrpoles. No Brasil, o plano inicial, traado pelos dirigentes da igreja, da editora e da Record, quando se lanou o primeiro Nada a Perder, previa cinco eventos em shoppings de grandes capitais. O ltimo da leva foi no Rio de Janeiro, onde se verificaram as maiores vendas at hoje: numa livraria na Zona Norte, saram 120.000 exemplares. Surgiu ento a ideia de multiplicar os lanamentos. Publicado em 2012, o primeiro Nada a Perder j vendeu 1,2 milho de exemplares. O segundo livro soma 250.000, e contando: at novembro, esto programados mais de trinta eventos. Para manter tudo em casa, a Record Entretenimento  brao da emissora dos bispos responsvel pela promoo e produo de shows e filmes  foi contratada para a organizao. 
     Mas o trabalho de base  da Igreja Universal: seus pastores e bispos promovem os lanamentos em cada localidade. nibus so alugados para o transporte dos fiis leitores, e emissoras regionais de TV e rdio da Record reforam a divulgao. Com uma estimativa do nmero de pessoas em mos, os organizadores passam a encomendar exemplares  livraria escolhida. Poucos fiis adquirem seus livros no prprio dia do evento: a maioria j chega com eles embaixo do brao, comprados antes por intermdio de pastores e representantes da igreja. Essas vultosas compras so diludas ao longo dos dias que antecedem o evento, em um negcio pouco rotineiro para livrarias, em que o grosso da movimentao  feito por carto. Em So Jos, os pastores apareciam na loja com bolsas cheias de dinheiro vivo e compravam at 500 exemplares na boca do caixa. "Nunca vimos tanto dinheiro em um s dia. Tivemos de contratar um carro-forte", diz um gerente do grupo Livrarias Curitiba.  um negocio para as livrarias: o valor movimentado em So Jos  cerca de 580.000 reais  supera a venda mdia de um ms naquela loja. Mas esse tipo de evento, com suas filas imensas, pode ser tambm um pesadelo logstico. No  todo shopping que abraa esse inconveniente. O Beiramar, o principal shopping de Florianpolis, no aceitou a empreitada. 
     Nada a Perder nasceu do desejo de Edir Macedo, 68 anos, de contar a prpria verso de sua histria. O bispo tem o sentimento de que a imprensa (sobretudo a Rede Globo, sua rival, muitas vezes atacada no livro) no lhe faz justia. O texto foi composto por Douglas Tavolaro, homem de confiana de Macedo, a partir de 300 horas de depoimento do bispo. Com letras grandes e um tom tonitruante que por vezes lembra as pregaes dos templos, os dois livros j lanados narram, entre outros acontecimentos, a converso da famlia catlica de Macedo  f evanglica, a fundao da primeira Universal no espao de uma antiga funerria na Zona Norte do Rio de Janeiro, a estratgia pioneira do bispo de conquistar seguidores por meio da compra de horrios matutinos na TV Tupi e a priso de onze dias que ele amargou numa delegacia de So Paulo, em 1992, acusado dos crimes de charlatanismo, curandeirismo e estelionato. Macedo compareceu pessoalmente a apenas um lanamento, realizado em uma casa de deteno, em So Paulo. O livro no foi vendido, mas distribudo aos presos. 
     Os nmeros do bispo ainda esto distantes dos de seu rival catlico Marcelo Rossi: o padre vendeu 1 milho de exemplares de Kairs e 10 milhes de gape. Mas as multides que se aglomeram nos lanamentos atestam o poder da Universal. No se concebe que um "representante" de, por exemplo, Paulo Coelho consiga atrair milhares de leitores para uma sesso de autgrafos. Tambm h outra particularidade no fenmeno: livros que ocupam o topo das listas costumam vender regularmente em todas as livrarias do pas, ao passo que Nada a Perder 2 depende exclusivamente dos eventos. No fosse pelos nmeros amealhados nestes, a obra nem sequer constaria da lista de VEJA. Diretores da Record gostam de falar da importncia cultural da iniciativa, que leva s livrarias um pblico pouco familiarizado com esse ambiente. Mas, assim como entram em uma livraria, s vezes pela primeira vez, os leitores de Edir Macedo tambm logo saem, quase sempre sem ter olhado para qualquer outro ttulo. Tal foi o caso de Maria das Graas, a primeira da fila em So Jos. Indagada pela reportagem sobre os meios de informao que a haviam levado at o shopping, ela foi rspida: "Para que tu queres saber? Tu s da Universal?". Diante da resposta negativa, ela olhou para o cho e foi embora. 


8#3 CINEMA  TODA FOFA
No papel da princesa Diana, Naomi Watts se esfora na doura e capricha no penteado. Mas o resultado tem cara de telefilme  se no de telenovela.
MRIO MENDES

     Diana, princesa de Gales,  dessas personalidades de quem o pblico parece no se cansar jamais. Era bonita, jovem, elegante, rica e tinha sangue azul  conceito to anacrnico e ainda to capaz de fazer disparar coraes e os cliques dos paparazzi. Foi uma das mulheres mais famosas do sculo XX  seguida bem de perto por Marilyn Monroe, Jacqueline Onassis e, claro, Madonna, e cada passo seu, da apresentao ao mundo como consorte do prncipe Charles da Inglaterra, em 1980, at o trgico e fatal acidente de automvel, em 1997, foi exaustivamente observado, registrado e comentado. Dezesseis anos depois de sua morte, o cinema tenta lhe render homenagem com um filme que chega com pelo menos duas credenciais de peso:  protagonizado pela atriz inglesa Naomi Watts, duas vezes indicada ao Oscar, e dirigido pelo alemo Oliver Hirschbiegel, de A Queda! As ltimas Horas de Hitler. Ento por que tudo d to errado em Diana (Inglaterra/ Frana/Sua/Blgica, 2013), em cartaz no pas desde sexta-feira? 
     Baseado no livro Diana, o ltimo Amor de uma Princesa, de Kate Snell, o filme trata dos dois ltimos anos de vida da princesa e conta a histria de seu romance com o mdico paquistans Hasnat Khan (Naveen Andrews, o Sayid da srie Lost), alinhavando-a ao imbrglio da rumorosa entrevista dada ao jornalista da BBC Martin Bashir, em 1995, e o namorico com o playboy Dodi al Fayed, que morreria ao lado dela no desastre em Paris. 
     H que levar em conta que, apesar de ter vivido em um ambiente rarefeito e magnetizado por assuntos candentes  as estripulias da monarquia britnica, o desenfreado culto s celebridades e as causas humanitrias , Diana, como personagem, tem estatura mais de mocinha de telenovela que de figura histrica. Pobre menina rica, criada em lar desfeito  os pais se separaram quando ela era criana e a me foi viver na Austrlia , que realiza o sonho mximo almejado por uma garota romntica: casar-se com um prncipe de verdade. Mas o destino, essa quimera desalmada, encarrega-se de abalar a felicidade da princesa pelas mos de duas bruxas. De um lado, a sogra rainha, Elizabeth II, que, conforme consta, a considerava apenas "uma garota aborrecida". Do outro, Camilla Parker-Bowles, a amante de longa data de seu marido  desde o casamento com o vivo Charles, em 2005, feita duquesa da Cornualha. 
     Diana, o filme, padece por investir com tanta insistncia na fbula do romance cor-de-rosa com final infeliz. H momentos que insinuam a habilidosa frieza da princesa para manipular a imprensa  como na cena em que ela ensaia diante do espelho as dolorosas falas para a entrevista da BBC , e outros que enaltecem sua entrega sincera a causas como o desarmamento das minas terrestres na frica. Em vista do tom predominante, porm, essas nuances somem; tudo acaba soando como mais do mesmo  caprichos de uma garota mimada que deseja ardentemente ser amada porque o mundo cruel lhe deve alguma compensao. 
     Portanto, so tambm inteis os esforos de Naomi para acrescentar alguma substncia aos clichs do olhar desamparado, da compaixo pelos desvalidos e da mulher "em busca de seu prprio espao"  e  comovente ver como o carismtico Naveen Andrews sua para ir alm do repertrio de galanteios de Khan e do seu orgulho ferido de homem que se apaixonou por uma mulher famosa demais. No h aqui nem aquela comicidade involuntria que costuma fazer desse tipo de material um pequeno prazer perverso.  coisa para ver na TV, em madrugada insone. Sobre Diana, ainda no surgiu filme que supere aquele em que ela nem sequer aparece  o perspicaz A Rainha, de Stephen Frears. 


8#4 CINEMA  ZONA DE SOMBRA
Em Os Suspeitos, o rapto de duas meninas  o abismo sempre  espreita.

     Denis Villeneuve, o cineasta canadense do espetacular Incndios, , assim como David Fincher, um adepto do garrote: ele laca a garganta do espectador e puxa a corda bem devagar, tirando-lhe o ar frao a frao. No por sadismo, mas para irman-lo com seus personagens a partir do instante em que estes so mergulhados em algum pesadelo real que se torna cada vez mais denso. Em Os Suspeitos (Prisoners, Estados Unidos, 2013), j em cartaz no pas, para os amigos e vizinhos casais Dover (Hugh Jackman e Maria Bello) e Birch (Terrence Howard e Viola Davis), esse instante  o da descoberta de que suas filhas pequenas sumiram da porta de casa no Dia de Ao de Graas. A polcia prende Alex Jones (Paul Dano), um rapaz com problemas mentais que estacionou seu trailer ali por algumas horas. Mas Alex no confessa. No trailer, no h vestgio forense das duas meninas. A tia de Alex (Melissa Leo) diz que o criou e sabe que ele  incapaz de violncia. O detetive Loki (Jake Gyllenhaal) e obrigado a solt-lo. E, enquanto a incerteza sobre o destino das meninas prossegue e Loki investiga outras pistas e outros suspeitos, o devoto Dover, cuja f tem um pronunciado vis apocalptico, julga que os indcios contra Alex so fortes o bastante: rapta-o e o tortura dias a fio para obter uma resposta. 
     A violncia contra uma criana  um ponto de partida como nenhum outro para reflexes sobre moralidade e justia, j que se est no territrio da absoluta indefensibilidade da ao criminosa  e tambm no terreno pantanoso de quanto  aceitvel descartar as regras e avanar na escurido. Em Os Suspeitos, h penumbra por toda parte. Ela est na cinematografia em cinza, marrom e chumbo do grande Roger Deakins, e nas zonas de sombra que ela registra: a recusa inexplicvel de Alex em falar, a atitude ambgua de sua tia, a repugnncia de Dover pela prpria ferocidade e o olhar ao mesmo tempo compassivo e discernidor do detetive to bem interpretado por Gyllenhaal.  o policial o condutor da plateia para um mundo em que violncia, mal e injustia no so uma dimenso isolada das outras, aquelas em que se vive  so um abismo, sempre pronto a tragar, bem sob o cho em que se pisa. 
ISABELA BOSCOV


8#5 VEJA RECOMENDA
DVDs
ANTES DA MEIA-NOITE (BEFORE MIDNIGHT, ESTADOS UNIDOS, 2013. PARIS)
 Como um filme em que os dois protagonistas falam e discutem sem parar, at deixar o espectador com os ouvidos zumbindo, pode ser to encantador, comovente e radiante? No  simples  porque no  fcil criar personagens como Jesse (Ethan Hawke) e Cline (Mie Delpy), que se conheceram quase duas dcadas atrs num trem, em Viena, em Antes do Amanhecer, e perderam-se de vista; reencontraram-se em Paris, nove anos atrs, em Antes do Pr-do-Sol, quando ela foi ao lanamento do livro em que ele ficcionalizou esse episdio romntico; e agora, casados e pais de gmeas, esto cedendo ao desgaste da rotina. No penltimo dia de frias na Grcia, Jesse despacha o filho do primeiro casamento de volta para Nova York e sofre com a distncia do menino. Cline se magoa com a sugesto de que eles se mudem para os Estados Unidos. E a briga, que comea meio de brincadeira, vai atingindo pontos cada vez mais fundos e dolorosos. Em longos planos sem trgua, Richard Linklater dirige os amigos Hawke e Julie, que escreveram os prprios e sensacionais dilogos. Ateno redobrada a eles, alis: as legendas so um pavor.

FRANK E O ROB (ROBOT & FRANK, ESTADOS UNIDOS, 2012. FOX/SONY)
 Em um futuro muito prximo, Frank (Frank Langella), um ex-ladro de jias para todos os efeitos reabilitado de sua vida de crimes, no  mais nem de longe o homem formidvel que foi um dia. Ainda mora sozinho, mas est dando sinais de senilidade  razo pela qual seu filho (James Marsden) o pe em companhia de um rob cuidador. Uma criatura gentil, mansa mas obstinada ("nada de sal na comida!"), o rob , de incio, apenas uma chateao para Frank. Pouco a pouco, porm, o velho comea a prezar a presena dele, e mais ainda quando lhe ocorre que o rob pode ser usado para incurses furtivas s casas dos vizinhos em busca de objetos de valor. A bibliotecria da cidadezinha (Susan Sarandon), uma mulher adorvel que Frank corteja (quando a memria no falha e ele esquece que o estava fazendo), acha que h um arranjo curioso entre seu pretendente e o cuidador; o xerife local (Jeremy Sisto) fareja que, alm de curioso, o arranjo pode ser tambm escuso. Langella, de 75 anos, vem usufruindo um prestgio nesta ltima dcada que nem sempre conheceu  mas que  muito merecido, como se pode conferir neste filme que  ele prprio manso e curioso.

LIVRO
 MESA COM PROUST, DE ANNE BORREL, JEAN-BERNARD NAUDIN E ALAIN SENDERENS (VRIOS TRADUTORES; SEXTANTE; 192 PGINAS; 59,90 REAIS)
 Poucas passagens da literatura so to citadas quanto a cena de Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, em que o protagonista descobre no paladar de um bolinho com ch a chave de suas memrias. Apesar de ela ser evocada largamente por autores de artigos e livros sobre gastronomia, so raros os profissionais da rea que leram os sete volumes da obra. Vasto levantamento dos trechos em que o autor francs escreve sobre comida e o universo que a cerca,  Mesa com Proust procura trazer substncia a vrios desses textos, analisando o paladar e sua capacidade de despertar emoes. Fora de catlogo havia quinze anos, o livro faz parte da reedio de uma coleo que inclui tambm o timo  Mesa com Monet. O volume traz belas fotos e receitas deliciosas que, embora no sejam de autoria do prprio Proust ou de sua famosa cozinheira, aludem aos pratos citados pelo autor ao longo da narrativa, reconstitudos especialmente pelo chef francs Alain Sanderens de acordo com os preceitos culinrios da virada do sculo XIX para o XX. 

DISCOS
THE SAME SUN, SHARON CORR (Music BROKERS)
 Nos anos 1990, o Corrs invadiu o mercado fonogrfico americano com uma acessvel  e por vezes enjoativa  mistura de pop com msica folclrica irlandesa. O grupo entrou em recesso em 2006 e, desde ento, seus ex-integrantes, todos irmos (o guitarrista Jim, a vocalista Andrea, a violinista Sharon e a baterista Caroline Corr), se lanaram em projetos-solo. Dos quatro, Sharon foi quem se mostrou mais talentosa. Primeiro porque seus lbuns pouco lembram os da banda. Em The Same Sun, seu novo trabalho, h influncias confessas das baladas do duo americano The Carpenters (especialmente em Take a Minute, o primeiro single de divulgao) e muito do soft rock dos anos 1970. Um dos responsveis por essa proeza  o produtor Mitchell Froom, que contribuiu com alguns dos melhores discos da cantora Suzanne Vega e produziu os mais recentes do cantor e compositor Randy Newman. Sharon, que em sua antiga banda raramente assumia os vocais principais, se revela uma cantora de talento em baladas que exigem mais forca de interpretao do que tcnica refinada  como em Edge of Nowhere.

NEW, PAUL MCCARTNEY (UNIVERSAL)
 No incio deste ano, surgiu o boato de que Paul McCartney iria incluir um funk carioca no disco que estava gravando, o primeiro de faixas inditas em sete anos. Mas no h com que se preocupar: New, o tal lbum, no faz nenhuma referncia ao pancado do Rio de Janeiro, embora um de seus quatro produtores esteja atento a novas sonoridades  Mark Ronson, que dividiu o trabalho com Paul Epworth (Adele), Ethan Johns (Kings of Leon) e Giles Martin, filho de George Martin, o homem que refinou a sonoridade dos Beatles. As intenes de McCartney, a princpio, seriam bem claras. Ele teria a seu lado dois representantes da modernidade e dois especialistas do passado. Mas nem tudo resultou assim to divididinho. A faixa que d ttulo ao lbum tem produo de Ronson e parece ter sado das sobras de gravao de Penny Lane, dos Beatles. Ainda que vez ou outra deixe sua zona de conforto, o Paul McCartney de New vai agradar mais aos fs antigos. Canes como I Can Bet ou baladas como Early Days tm melodias graciosas e interpretaes doces como s o ex-beatle sabe fazer. E isso nem as preparadas nem as poderosas podem negar. 


8#6 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1. A Casa de Hades. Rick Riordan. INTRNSECA
2. A Culpa  das Estrelas.  John Green. INTRNSECA 
3. Cidades de Papel. John Green. INTRNSECA
4. Inferno.  Dan Brown. ARQUEIRO 
5. O Silncio das Montanhas.  Khaled Hosseini. GLOBO 
6. O Teorema Katherine. John Green. INTRNSECA 
7. A Marca de Atena. Rick Riordan. INTRNSECA
8. O Pequeno Prncipe. Antoine de Saint-Exupry. AGIR 
9. O Ladro de Raios. Rick Riordan. INTRNSECA
10.   O Mar de Monstros. Rick Riordan. INTRNSECA

NO FICO
1. Nada a Perder 2. Edir Macedo. PLANETA DO BRASIL
2. 1889. Laurentino Gomes. O GLOBO 
3. Sonho Grande. Cristiane Correa. PRIMEIRA PESSOA
4. 1822. Laurentino Gomes. NOVA FRONTEIRA 
5. 1808. Laurentino Gomes. PLANETA
6. Guia Politicamente Incorreto da Histria do Mundo. Leandro Narloch. LEYA BRASIL 
7. Holocausto Brasileiro. Daniela Arbex. GERAO EDITORIAL.
8. O Mnimo que Voc Precisa Saber para No Ser um Idiota. Olavo de Carvalho. RECORD
9. Carlos Wizard  Sonhos No Tm Limites. Igncio de Loyola Brando. GENTE
10. A Graa da Coisa. Martha Medeiros. L&PM 

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1. Kairs.  Padre Marcelo Rossi. PRINCIPIUM
2. Eu No Consigo Emagrecer.  Pierre Dukan. BEST SELLER 
3. Casamento Blindado.  Renato e Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL
4. O Mtodo Dukan  Eu No Consigo Emagrecer.  Pierre Dukan. BEST SELLER 
5. O Monge e o Executivo.  James Hunter. SEXTANTE 
6. Receitas Dukan. Pierre Dukan. BEST SELLER
7. Seja a Pessoa Certa no Lugar Certo. Eduardo Ferraz. GENTE
8. Quem Me Roubou de Mim? Fbio de Melo. CANO NOVA 
9. O Poder do Hbito. Charles Duhigg. OBJETIVA
10. 51 Atitudes Essenciais para Vencer na Vida e na Carreira. Carlos Hilsdorf. CLIO EDITORA


8#7 ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  O LIVRO DO ALFERES
     Um livro, um simples livro, serviu mais que outros fatores para alimentar o entusiasmo, as reflexes e os propsitos do punhado de personagens que, em fins do sculo XVIII, se envolveu no episdio que entrou para a histria como Inconfidncia Mineira. O alferes Joaquim Jos da Silva Xavier, o Tiradentes, tinha-o consigo na viagem que fez ao Rio de Janeiro, para propagar os ideais da programada revoluo. Desfez-se dele pouco antes de ser preso, ao sentir que estava sendo seguido, enviando-o de volta a Minas Gerais por um colega militar. O livro portava o ttulo, longo como era prprio da poca, de Coletnea das Leis Constitutivas das Colnias inglesas Confederadas sob a Denominao de Estados Unidos da Amrica Setentrional. Estava escrito em francs, a lngua internacional do perodo. A inteno era divulgar os ideais da Revoluo Americana e angariar-lhe apoios, na Franca em especial, e no mundo em geral.  
     Um lanamento editorial recente traz, sob o ttulo de O Livro de Tiradentes (Penguin & Companhia das Letras), uma traduo do Recueil (Coletnea, em francs), acompanhada de preciosos ensaios coordenados pelo brasilianista Kenneth Maxwell, autor do fundamental A Devassa da Devassa, sobre o mesmo episdio. No adiantou Tiradentes ter tentado se livrar do livro. To logo chegou a Minas, o oficial a que o confiou entregou-o s autoridades. O contedo era nitroglicerina pura. "Tratava-se de documentos revolucionrios, que constituam a primeira tentativa de condensar e afirmar princpios, direitos e deveres universais por meio de documentos constitucionais escritos", escreve Maxwell. O livro provava, como afirmou uma das testemunhas ouvidas na Devassa  o volumoso inqurito aberto contra os insurretos , que, em vez "da obedincia que devem prestar a seus legtimos soberanos", os acusados acalentavam "a vontade de fazerem do Brasil uma Repblica livre, assim como fizeram os americanos ingleses".  
     A Coletnea reunia a Declarao da Independncia, os Artigos da Confederao e as constituies de seis das treze ex-colnias inglesas, alm de documentos menores. A Constituio dos Estados Unidos no existia ainda, quando da edio do volume. Os Artigos da Confederao cumpriam, em seu lugar, o papel de regular a frouxa unio entre as ex-colnias. Referncias aos "americanos ingleses so numerosas na Devassa   mais de noventa. Segundo Maxwell. A maioria  atribuda a Tiradentes. O mais simples entre os cabeas de um movimento que reunia a elite local, ele no lia francs. Conhecia bem o livro, no entanto, decerto pela traduo e pelos comentrios dos companheiros, como indica um episdio relatado nos autos: em meio a uma discusso, em reforo a seus argumentos, sacou da Coletnea e pediu ao interlocutor que lhe traduzisse o artigo da Constituio da Pensilvnia que tratava da eleio dos integrantes de um certo rgo da administrao. Lido o tal artigo, segundo a testemunha que relata o episdio, Tiradentes "folheou muito o mesmo livro". 
     Os inconfidentes possuam dois exemplares da Coletnea. O que estava com Tiradentes foi o primeiro a cair em poder das autoridades, causando tal impacto que se abriu um inqurito  parte. O exemplar, contendo numerosas anotaes a tinta  provavelmente dos conspiradores , foi anexado ao processo e depois da Independncia permaneceu "dentro de um saco verde", junto com outros documentos, nos arquivos do Imprio, no Rio de Janeiro, at que, em 1860, se decidiu do-lo  biblioteca que ento se constitua no Desterro, nome de Florianpolis  poca. Em 1984, a pedido do ento governador de Minas, Tancredo Neves, o governador de Santa Catarina, Esperidio Amin, devolveu-o a Minas. Agora figura no acervo do Museu da Inconfidncia, em Ouro Preto, ponto final do destino, comum a outros livros, de pea de acusao a relquia histrica, de maldio  glria.
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     O que se sabe de Tiradentes  o que est na Devassa. Ele no teve quem se debruasse sobre sua biografia, quando ainda era tempo de colher depoimentos de quem o conheceu e recolher documentos que lhe dissessem respeito. Seu rosto no  conhecido.  sempre temerrio, e arrisca soar demaggico, buscar num outro perodo histrico ilustraes do presente, mas que bem faria,  histria do Brasil, se dispusssemos de uma biografia de Tiradentes. A possibilidade de travar a produo de biografias que vige no Brasil de hoje contribui para a mutilao da histria. 


